quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Sinceridade

Sincero é aquele capaz de machucar a própria alma
Não falta uma palavra sequer no discurso
Tudo flui.
Não há perguntas ou dúvidas no ar
Não há reticências
Só pontos finais
Se contestar, perde-se o brilho
Perde-se a sinceridade

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Recanto

Voz de melodia envolvente
Aguça a audição
Desperta sensações
Até o tempo se poupa por instantes
A sonoridade tranqüiliza a alma
Transcende aos desejos mais proibidos
Os olhos se fecham para o sentido se fazer existir
Na mente, a realidade vai sendo transportada
Desfaz o medo e consegue chegar ao puro sentimento
Que só quer ficar calado em nosso recanto

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Não há decepção maior de um ser humano do que a covardia alheia. Apesar de ser uma única palavra, ela abrange vários significados. Covardia é sinônimo de fraqueza, de ausência de amor próprio, de indelicadeza. Uma pessoa covarde é incapaz de ter qualquer sentimento, de demonstrar amor... tudo isso são privilégios dos corajosos. É um medo consentido de alguém desprovido de força. É uma pessoa cruel, fria, que não consegue viver em harmonia consigo mesma, que vive traindo-se e traindo as pessoas que o cerca. Falta de caráter é o primeiro sinal, onde se peca pelo silêncio, ao invés de manifestar-se. O covarde se esconde atrás da verdade que não consegue enxergar. A covardia é cega. Quem é covarde não é digno, sequer, de felicidade.

sábado, 17 de outubro de 2009

O dia em que Luís Hernandes resolveu mudar

Fim de tarde. Lá, no mesmo lugar, estava Luís Hernandes à espera do coletivo para ir ao curso. A rotina cansada era a mesma há três anos. Cruzava sempre com as mesmas pessoas na parada de ônibus, pegava o transporte com o mesmo motorista, o trajeto não mudava nunca, as aulas pareciam eternas. Até a namorada estava lhe causando certo repúdio. Brigas se tornaram freqüentes, desde que ele voltou de férias do Maranhão. E a conta de telefone passou a vir exorbitante...

Naquele dia, Luís Hernandes saiu de casa com gosto de gás. Decidido a tornar sua vida diferente. Mudar era a palavra-chave. As primeiras alterações começaram nas peças de roupas. Nada que ele passou a usar era costumeiro. Vestiu-se com uma camisa mais arrojada, um tênis All Star e uma bermuda bem transada (imaginem como quiser). Aquilo não era a cara dele, mas o sentimento de transformação falava mais alto. Bem mais alto.

A pasta que costumava carregar foi trocada por uma bolsa Adidas, dessas à tiracolo. O cabelo ganhou um topete simpático e gel para modelar os fios loiros das luzes que fez. Perfume no cangote e nos pulsos. Pronto. Pelo menos nas vestimentas, Luís aparentava ser outra pessoa.

Ao chegar na parada, a menina que sempre virara a cara para ele respirou fundo, sentindo o cheiro delicioso do perfume do novo rapaz. A jovem tinha os cabelos compridos, corpo de dar inveja a qualquer mulher e olhos cor de mel. De fato, Luís era caidinho por ela, mas dar bola a essa altura do campeonato mudaria os planos. Saiu de fininho e foi para o outro lado. A menina, claro, achou logo que ele fosse veado.

Enfim, chegou o ônibus de Luís Hernandes. Ele entrou pisando firme, emitindo barulho na lataria do veículo. O motorista (de sempre) chega se assustou com a ousadia do garoto.

- “Bom dia”, disse o motorista
- “Ahê, motô”, respondeu Luís, sentando na última cadeira.

O jeitão esparramado era meio forçado. A encenação terminou com a famosa coçadinha no saco. O cobrador virou a cara, com ar de reprovação. Três minutos depois o celular tocou. Era a sua namorada perguntando porque ele ainda não havia dado sinal de vida.

- “Ah, não senti vontade de ligar e pronto”
- “Como assim não sentiu vontade? Você tá louco? Pirou?”
- “Acho que sim,” disse Luís, desligando o telefone na cara da doida.

Era possível sentir a respiração da menina, que bufava do outro lado da linha. Com raiva, ela ligou novamente. Luís Hernandes demorou um pouco a atender.

- “Como você desliga o telefone na minha cara? Você nunca foi assim, não estou te reconhecendo. É você mesmo quem está falando?”

Luís Hernandes nada fez, a não ser afastar o aparelho celular do ouvido, diante do “pití” da namorada. Ainda tentou ser generoso, afinal, ela não tinha culpa nenhuma de tudo aquilo.

- “Ok, a gente pode conversar na faculdade”
- “Tá, então eu vou pra lá”
- “Agora vou apresentar um trabalho. Eu te ligo”

Desligaram o telefone. Não conformada, a menina ligou novamente. Luís atendeu irritado.

- “Oi”
- “Você vai apresentar o trabalho agora? Porque, se for o caso, chego aí em cinco minutos”

(mulheres são sempre ansiosas demais)

- “Deixa de ansiedade, garota. Assim que eu terminar a apresentação, eu ligo, pronto!”
- “Tchau, beijo”

Ele fechou a tampa do flip balançando a cabeça. Queria ter paciência, coisa que sempre teve. Deitou a cabeça na janela, deu play novamente no MP3 e esperou chegar ao destino.

Quando desceu à faculdade, sentiu uma canseira. Foi até à porta do elevador, mas desistiu de subir e saiu andando sem destino. Resolveu nem esperar mais a namorada, que virou ex sem nenhum motivo aparente. Luís chegou num bar meia boca e pediu uma cerveja. Nunca tinha ingerido nenhuma bebida alcoólica, tanto que ensaiou uma cara horrorosa quando sentiu o gosto amargo. Bebeu uma, duas, três…cinco. Ficou completamente embriagado. Cambaleante, caminhou até o banheiro, onde passou meia hora. Acabou cochilando. Os funcionários do boteco tiveram que arrombar a porta para tirá-lo de lá. Um vexame para o menino com fama de inteligente, que, no momento, estava despido. As pessoas que se dispuseram a expulsá-lo resistiram ao fato de ter que vesti-lo, mas foram obrigados pelo patrão.

- “Coloquem a roupa desse moleque agora! Depois, tirem-no daqui!”
- “Ok, senhor (em coro), responderam os funcionários”

Luís Hernandes estava na calçada, todo entregue. Até que resolveu se levantar, esticou os braços e fez aquela velha pergunta:

- “Onde estou?”
- “Você está no inferno”, respondeu o diabinho que acabara de encostar em seu ombro esquerdo.
- “Quem é você? Você existe mesmo? Então, cadê o lado do bem?”
- “Eu não existo e não tem lado do bem. Você só tem feito merda, cara!”

O menino começou a achar que poderia ter passado dos limites. Deve ter provado outras coisas a mais além da cerveja. Ele não queria e nem podia voltar para casa naquele estado. Então, decidiu continuar sua peregrinação. Foi até o centro da cidade e entrou numa boate. O lugar era um pouco escuro, com algumas luzes negras clareando. Um som de Britney Spears vinha de longe. Cada vez que Luís se aproximava, a música se tornava mais alta. No salão, muitas pessoas dançavam loucamente. Homens, mulheres, homens em mulheres, mulheres em homens. Um clima bem fraterno e instigante. O som das eletrônicas ia entrando no corpo de Luís. Quando ele mesmo esperou, estava se mexendo, jogando os braços molengos para frente e a cabeça para um lado e para o outro. E essa performance foi se tornando mais intensa, mais dançante e mais empolgante.

As pessoas abriram uma enorme roda para deixar um ser esquisito se mexer. Ele fechava os olhos e sentia Spice Girls dentro de si, Madona e Lady Gaga. O remelexo jegue não importava. Luís estava feliz, libertado. Só isso bastava. A coisa era tão prazerosa que todo mundo da boate passou a dançar junto com ele.

Em um instante, Luís saiu da discoteca e foi até o banheiro. Ao olhar para o lado, com a vista um pouco embaçada, viu duas mulheres se beijando. Ele franziu a testa, na tentativa de enxergar alguma coisa. O cabelo, a pele clara, o sinal na metade do braço…

- “Olha, não é nada disso!” - falou uma delas.
- Moça, sente-se feliz assim? – indagou Luís.
- “Eu ia te dizer isso hoje, mas você não apareceu na faculdade.” – continuou a garota

Era a ex-namorada, que sempre pagou de puritana.

- “Olha, querida, eu não sei quem você é. Passa amanhã. Beijo, não me liga”, proclamou Luís, saindo logo em seguida.

A menina ficou com a cara mais azeda do mundo, sem entender a reação do ex-namorado. Luís nem tinha ligado mesmo. Saiu da boate e vagou pela calçada procurando o que fazer.

Ele, então, sentou-se no meio-fio. O diabinho apareceu de novo. E desta vez, ele estava maior. Não era mais aquela coisa vermelha do tamanho de um passarinho que, anteriormente, havia pousado em seu ombro. Estava do tamanho de uma criança de dois anos, agora. Ele vinha andando na direção de Luís, cantarolando e balançando sua cauda pontiaguda com a mão esquerda, como se fosse um passo de balé. Nosso herói, Luís Hernandes, tentou se levantar, mas a pequena figura vermelha saltou em seu colo.

- Quem é você, porra?
- Já lhe disse. Eu sou o demônio e vim realizar uma obra demoníaca – responde o diabinho.

Seu hálito era enxofre puro e fez Luís enjoar.

O dia em que Luís Hernandes resolveu mudar - Parte II

O suco azedo invadiu-lhe o corpo, percorrendo veias, entupindo vasos, fundindo-se ao seu sangue. Neste momento, todos os órgãos pararam. O diabinho, ao lado, sorria feliz. Gargalhadas estridentes e diabólicas. Luís, então, vomitou. Botou para fora todo o podre que guardava dentro de si. Até a própria alma foi embora com o jato mau cheiroso. O pequeno diabo encostou-se ao seu rosto.

- “É, meu caro...você mudou demais. Não era pra ser assim. Nem beber você sabia, caralho.”

- “Ah, não enche. Me ajuda aqui.”, disse Luís Hernandes tentando tirar a cara do vômito.

- “Vai, levanta”, falou o diabo, puxando-o pelo braço.

- “Eu não consigo. É como se eu estivesse sem nada dentro de mim.”
- “Assim fica difícil, porra. Levanta, diabo!”
- “Hey, o diabo aqui é você. Não confunda as coisas.”

A cada segundo, Luís Hernandes ia ficando mais amolecido. Sua alma começou a largar do corpo, como se fosse uma regressão. Até o diabo teve medo. Enfim, saiu Luizinho da boca de Luís. Ele era do tamanho do diabinho, só um pouco mais magro. E, claro, a coisa vermelha estava feliz com o novo companheiro.

- “Você tá é bonitão, heim?”, comentou o diabo.
- “Que porra é essa que eu sou? Sou o anjo, é isso?”

O diabo deu uma risada incontrolável.

- “Anjo é a última coisa que você poderia ser.”

- “Num vem não que tu és muito pior do que eu.”
- “Eu sei disso, por isso que eu sou diabo!”, completou, elevando os braços para assustar Luís.

- “Sai de perto de mim, porra.”
- “Veja o lado bom. Agora, podemos ser brothers, cara!”
- “Que mané brother, tá louco? Estou assim, mas ainda não pirei completamente.”
- “Embora, vamos arrumar o que fazer!”, gritou o diabo, que já estava quase no fim da rua.

Luizinho Hernandes andou a passos lentos, querendo resistir àquela loucura. Perguntava-se a todo instante o que estava fazendo ali, com aquele tamanho, aquela transparência e com aquela criatura de rabo vermelho. - “E se for um sonho, este é o momento em que minha alma vaga pela madrugada?”, indagou-se.

Já eram duas horas da madrugada. A rua estava deserta. Luizinho Hernandes e seu diabo amigo andavam sem rumo.

O dia em que Luís Hernandes resolveu mudar - Parte III (final)

Os dois pararam em frente a um bar. Um lugar sujo e feio, com cadeiras e mesas velhas. Um homem gordo cochilava no balcão.

- "Vamos", disse o diabo.

Entraram e sentaram em uma mesa. O homem gordo acordou com o som das cadeiras sendo movidas e veio até eles. Com um pano molhado, enxugou a mesa e perguntou o que iam querer.

- "Cerveja", respondeu o diabo.
- "Não quero beber", gritou Luís Hernandes.
- "Mas vai. Fique aí que eu vou ao banheiro."

O gordo trouxe a cerveja e serviu dois copos. Luís bebeu, mesmo sem vontade. O diabo voltou e sentou-se ao seu lado.

- "Você cresceu mais ou é impressão minha?", perguntou Luís.

A figura vermelha, agora, tinha pouco mais de um metro de altura.

- "Sim. Não é legal?"
- "Não sei. Pra mim não tem importância."
- "Mas devia ter. Eu, por exemplo, me importo com o fato de você estar encolhendo."
- "Encolhendo?"

Assustado, Luís Hernandes levantou-se. Sua bermuda caiu até o chão e ele por pouco não tropeçou enroscado com ela em suas pernas.

- "Bonita cueca", disse o demônio, após tomar um gole de cerveja.

Luís Hernandes sentou-se de novo, constrangido. O gordo, no balcão, olhava para ele meio cismado com seu repentino strip-tease de Luís. Então, notou que sua camisa também estava folgada e seus pés balançavam dentro dos tênis All Star.

- "Quero ir pra casa, falou. Seu tom de voz era como o de um pedido. Como um garoto se sentindo desconfortável em um lugar estranho."
- "Não. Você não quer. Não tem nada lá."

Luís Hernandes abaixou a cabeça e fez um beiço de quem ia chorar. O diabo lhe deu uma tapa no rosto. Luís o encarou, constrangido e, agora, curioso.

- "Desde quando você usa gel, no cabelo?", perguntou Luís.

O diabo tinha agora um topete pintado de loiro. E estava maior, muito maior. Luís achou que estava bêbado ao extremo, mas depois percebeu. Realmente o diabo tinha crescido mais. Só que Luís havia encolhido significativamente. Ele estava agora envolto em suas roupas e sua camisa parecia mais um lençol.

- "Eu encolhi", disse ele, gaguejando. – "Você cresceu."
- "Venha", falou o diabo, lhe estendendo a mão.

Luís Hernandes subiu em sua mão e o diabo o levou até perto do seu rosto.

- "Chegou a hora de você fazer a coisa certa.", sentenciou o diabo, e em seguida arreganhou a boca.

Luís Hernandes, então, saltou para dentro da escuridão.

O diabo levantou-se, vestiu as roupas de Luís, pagou a cerveja e saiu do bar. Do outro lado da rua, havia alguns carros com os sons ligados e umas pessoas bebendo no local. Em uma das rodas de amigos, estava a menina que Luís Hernandes sempre via na parada de ônibus. Ela encarou abriu um farto sorriso quando viu o diabo e caminhou até ele.

- "Oi. Eu não te conheço?", perguntou ela.
- "Prazer em conhecê-la. Espero que adivinhe meu nome", respondeu ele, com um sorriso no rosto.


p.s: Conto baseado numa criatura grotesca que se sentou ao meu lado no ônibus.

Créditos:

Andreane Carvalho


Colaboração: Geraldo de Fraga (jornalista e escritor do livro História que nos Sangram – a venda nas melhores livrarias!).

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Instante

Para brincar com o medo é preciso ser conhecedor
Brincar de vencer as amarguras e a dor
Nem tudo o que fala é permanente
Traiçoeiro, resolve logo cortar o mal pela raiz
Diz-me como faz para ser feliz?

A possibilidade apossa a posse
Mas, a brincadeira acabou
Pode começar a cessar
E não cesse sem antes tentar

Ri para descontrair
Ir para desiludir
Vir para não haver saudade
Deixa isso para daqui a dez anos



Às 21h01, passando pensamentos supérfluos para o papel.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Não!



Não é pra ficar aqui não. Aqui não pode ficar não. Aqui, não.
Tá olhando o quê? Não é pra ficar aqui não. Não pode ficar não.
Se manda daqui vai. Vai embora. Aqui não é lugar pra você.
Tá esperando o quê? Dá um fora daqui dá. Sai daqui.


Decidi postar essa imagem juntamente com esse trecho, que é uma música da banda Cidadão Instigado. Achei coincidência o bastante estar diante da figura e da letra no mesmo dia. Aí, para completar, lembrei de um texto que eu havia feito para uma disciplina da faculdade. Bingo! Os três têm afinidades de sobra.

Receber uma negação causa, num primeiro momento, um sentimento de frustração. Se fossemos pensar quantas vezes no dia falamos, ouvimos e até pensamos “não” estávamos fodidos. Né, não? Receber um não após uma negociação, após a apresentação de um projeto, ao declarar seu amor a alguém, não é algo que realmente queiramos, principalmente, quando agimos com a honestidade das palavras e dos sentimentos.

A palavra “não” parece ser a primeira que aprendemos em nosso vocabulário. Desde criança recebemos NÃOS. “Menino, não faça isso”, “Eu já te disse para não ir lá”, e por aí vai... Entretanto, há quem afirme que a criança começa a desenvolver seu pensamento a partir de frustrações. E que a falta delas na infância pode acarretar, no futuro, um adulto eternamente insatisfeito ou desencadear crises emocionais como resposta a qualquer contrariedade. Estava certo o sábio Freud ao dizer que somos todos esquizofrênicos. A culpa disso tudo deve ser do simples e remedioso “não”.

Para entender melhor todo o contexto, a palavra frustração vem do latim frustatio que, por sua vez, significa em vão, ou seja, impedir que a pessoa atinja um objetivo, uma meta, uma expectativa ou um desejo. E, quanto maior o objetivo, a meta ou a expectativa, maior a frustração. É quando somos privados da satisfação de um desejo ou de uma necessidade. Quem não (olha aí) gosta de fazer o que quer?! Estamos sempre diante de frustrações. É terrível ler isso, mas é fato. Pode significar impedimento, atraso e conflito. Mas, no fim, a palavra de ordem é sempre a mesma, é não, não e não!

Uma simples palavra de três letras causa uma imensidão de problemas. Vários palavrões são acarretados pelo “não”. Agonia, amargura, angústia, ansiedade, consternação, desalento, desânimo, desapontamento, decepção, descontentamento, descrença, desilusão, desgosto, ira, mágoa, malogro, ódio, perplexidade, raiva, rancor, tristeza, para citar alguns. Em casos extremos, pode até desencadear uma baixa da auto-estima no indivíduo, aparecimento dos sintomas de estresse e depressão. Você está pensando em não dizer mais não, não é? Positividade é enterrar o não consigo, camarada!

O “não” pode significar muita coisa na vida de uma pessoa. Isso depende da entonação e da causa. Receber um “não” pode não ser o fim do mundo. Claro que necessitamos de um tempo para recuperar o impedimento, podendo ser algo demorado e difícil.

Outra coisa legal de receber um “não” é a experiência de aceitar as mudanças que ocorrem em nossas vidas. Relaxe e enfrente-o com naturalidade. Ele não tem a capacidade de cometer um assassinato. Até onde eu saiba, o “não” não possui região cortante, perfuradora ou efeito venenoso. Também não seja egoísta e pense que o “não” é só seu. Ele está com todo mundo. O “não” faz parte da vida, independente de classes e raças! Tudo depende da maneira como ele é visto e encarado. O importante é saber que o “não” de hoje pode ser o “sim” de amanhã.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Por hora, escuto as minhas idéias

Escrevo para relatar as loucuras alheias
E durmo para esquecer os alheios
Alheios não sabem o que dizem
E eu não sei o que vos digo
Descanso...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Marasmo

O silêncio que se estabelece me pertuba
Gritos constantes caçoam o pé do ouvido
Lembranças teimam em voltar
Resistem por segundos
Percebo o quão cansados são os momentos
Sei que a esta hora sua sala está vazia
No máximo, espíritos de suas assombrações
Não necessariamente estou no meu lugar
Mas escuto de longe as melodias
Um marasmo saudoso
Boas histórias, que no momento me disponho à dissertar
Sua palavra calada, seu teto vazio, seu cigarro que finda
A vista tranquila da janela…
Eu não estou aí
Eu não estou nem aí

domingo, 20 de setembro de 2009

Quase real

Já eram onze horas daquela noite que parecia infindável. A conversa havia se esgotado. De um lado, Mônica se recolhia para o quarto, silenciosamente. Stênio, seu marido há minutos atrás, continuava a resmungar a separação. Ele não entendia o porquê, mesmo depois de horas a fio de conversa, brigas, insultos e tentativas de reconciliação. Daqui para frente, não haveria mais casal. Os vinte anos estavam indo embora ali mesmo, sem, aparentemente, o menor sentido.

Mesmo com todo o sofrimento, Mônica parecia estar firme. Enxugou as últimas lágrimas, colocou o pijama e foi dormir. Ao contrário de Stênio, que estava disposto a esperar o amanhecer, com um retrospecto filme iniciando em sua mente. Eram muitos anos passados juntos. A priori, a rotina parecia ter engolido o casal. Ele era fotógrafo, trabalhava para uma assessoria de comunicação. Ela era cantora e passava a maior parte do tempo em casa, ensaiando repertórios para as apresentações noturnas. O dia e a noite eram insuficientemou para Mônica e Stênio.

Da união, geraram um filho, Diogo, de apenas dez anos. A casa em que moravam foi construída com esforço e dedicação. O lugar era um sítio, um ambiente calmo, onde só se ouviam as onomatopéias dos animais.

Na sala, Stênio tentava adormecer no sofá. Toda vez que fechava os olhos, parecia se lembrar de todos os dias que passara com sua (ex) mulher naquela casa. Os abria suavemente para ter certeza de que tudo aquilo não existira mais. Na visão, a escuridão arrepiava os pêlos. Já sofria de uma saudade provocada pelo gosto da ausência que mal começou. O silêncio parecia gritante diante de tanto sofrimento que sentia. Lágrimas passaram a escorrer em seu rosto. Fechava os olhos firmemente para adiantá-las. Acabou pegando no sono.

Noite fria..

Mônica levantou-se cedo da cama. A cara era de quem parecia não ter dormido. A mente não descansara na última madrugada. Foi ao banheiro, passou uma leve água no rosto, antes de tomar banho. Ficou um bom tempo olhando para o espelho. Tirou a roupa lentamente e ligou o chuveiro. Alguns minutos de pensamentos vagos, que iam embora com a água que caía sobre seu corpo.

O silêncio instaurado em toda a casa era a prova de que não havia mais nada a se dizer ou fazer. E Mônica sabia.

Stênio tinha certeza, embora não quisesse aceitar. Até que resolveu desaparecer. Foi tão rápido como um voo de um pássaro. Egoísta como o amor que sentia.

sábado, 19 de setembro de 2009

Sensações

Na agonia do pensamento
Palavras obscuras
Não suficientes para serem compreendidas por quem quer que seja
Em alguns momentos aparecem explicações
Mas a boca não consegue balbuciar uma só palavra
Preferi ouvir o silêncio.

domingo, 6 de setembro de 2009

Do crítico ao caricato


Fui conhecer o Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa. E como uma boa turista, assisti a uma peça de teatro. Escolhi Hairspray, em cartaz no teatro Oi Casa Grande, com adaptação de Minguel Falabella. As atuações até são corretas, porém bastante exageradas...

Naturalmente, o musical Hairspray chama a atenção do público com um elenco recheado de globais. Afinal, quem não gostaria de ver o galã Edson Celulari interpretar uma mulher ou Danielle Winnits com um vestido super decotado. A trama se passa na cidade de Baltimore, nos anos 1960, em meio aos ritmos dançantes que balançavam os corpos juvenis em programas de televisão e ao questionamento das segregações sociais.

O primeiro ato abre com Simone Gutierrez, a atriz revelação e protagonista, interpretando a simpática e gordinha Tracy Turnblad, uma adolescente que sonha em virar estrela do programa “Corny Collins Show”. Ela carrega uma grande peruca na cabeça, moldada com o laquê Pegada Firme, o coadjuvante de luxo do espetáculo. Toda a arte da embalagem e da publicidade do spray, muito bonita por sinal, foi criada exclusivamente para a peça. Em três meses de temporada carioca, a produção informa que já foram consumidos mais de dois mil tubos do laquê. Pobre camada de ozônio.

No enredo, apesar de estar fora dos padrões estéticos impostos pela sociedade, a jovem Tracy parte em busca do estrelato. Simone consegue dar muita vida à personagem, numa mistura de interpretação impecável e carisma. Mesmo acima do peso e com um metro e meio de altura, como pede o roteiro original, a atriz executa os passos de dança com técnica, deixando o público deslumbrado e de olhos fixos em cada gesto.

Entre gritinhos e aplausos da platéia, quem entra logo após é Edson Celulari, no papel de Edna Turnblad, a mãe de Tracy. Com um vestido azul estampado com flores, bobes na cabeça e um par de pantufas de pelúcia nos pés, Celulari deixa a desejar logo de início, sem muita dedicação. Talvez, por se tratar de um espetáculo de quase três horas, montado com coreografias quase que acrobáticas, o ator deve tenha optado por “descansar” no primeiro ato. No segundo ele mantém o tom e o humor exigidos, mas, mesmo assim, sem muita semelhança com John Travolta, ator que arrasa na versão cinematográfica.

Já Arlete Salles, como a mãe da antagonista Amber, a jovem loira (e fútil), não se diferencia muito dos papéis que fez em “Toma lá da cá” ou no extinto “Sai de Baixo”. As piadas inspiradas no estilo do humor barraqueiro, escrachado e caricato dos dois programas, também dirigidos por Falabella, fazem o público confundi-la com as personagens que já atuou. Danielle Winnits também não fica para trás, forçando a voz gasguita para dar uma ingenuidade adolescente.

Os 20 cenários são de autoria de Renato Scripilitti. Simples, mas, com cores vibrantes e de fácil mobilidade, cumprem o seu objetivo de identificar locais e épocas. O figurino, assinado por Marcelo Pies, também evoca o contexto dos anos 1960 e é fiel ao Hairspray que estreou em 2002 na Broadway.

Com qualidades técnicas invejáveis e extremamente bem realizadas, a montagem brasileira de Hairspray se apresenta como uma obra competente e comparável à original, sobretudo no que diz respeito à tradução das letras que fazem parte da trilha sonora, muito bem dirigida por Felipe Senna. No entanto, a interpretação exagerada de alguns atores, necessária em alguns contextos, mas forçada em boa parte dos casos, como Jonatas Faro, o bonitão Link, é carregada e prejudica a adaptação.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Velhas brigas modernas

Eu pensava que quando a gente vai envelhecendo, além de ganhar rugas, iria se desfazer de certas “picuinhas”. Vou explicar melhor. Essa semana eu estava na parada de ônibus, esperando o maldito, que até hoje aterroriza minha volta da faculdade. Longe de mim gostar de escutar conversa dos outros, mas acabei me entretendo com a fofoca de duas senhoras. Elas aparentavam ter 50 anos, diga-se de passagem, uma idade já bem amadurecida…
As duas modestas damas estavam com uma bolsa a tiracolo (aquelas que ficam com a alça atravessada no corpo). Pareciam que tinham saído de algum curso. E tinham. No diálogo, uma delas se mostrava indignada porque a professora tinha colocado-a num grupo de pessoas odiosas.

- Elas me odeiam, como poderei fazer trabalho com elas?
- E eu também. Não, isso não pode ficar assim. Amanhã mesmo eu vou falar com a professora.
- Uma delas já chegou e disse pra mim que não ia com a minha cara. Disse que eu queria ser melhor do que todo mundo, até da professora. Me chamou de manipuladora!
- Elas não gostam de mim também não. Sem condições de fazer qualquer coisa que seja com essas meninas (sic). Isso é um absurdo. A gente tem o direito de escolher com quem trabalhar.

Depois de ter presenciado a cena, eu fiquei frustrada. Achei que esse tipo de assunto só existia enquanto a gente é jovem, quando estamos cercados de relações nebulosas e situações que nos tornam rivais. É claro que sempre existe aquela pessoa com a qual somos confidentes e juramos amizade eterna, mas as desavenças e o tal do juízo de valor ganham em disparada. Uma pesquisa realizada com usuários britânicos do MySpace, por exemplo, revelou que 36% dos jovens preferem amizade online. Sozinhos.com foi o título dado a uma matéria de capa da Veja, um dia desses. As redes sociais, como atestam os mais experientes no assunto, estão engolido as relações humanas, tornando-as frágeis. Então, eu pensei…será que essas duas senhorinhas não estão sabendo disso? E elas nem cresceram bombardeadas por tecnologia e sites de relacionamento para serem tão agressivas. Acredito piamente que a amarelinha e o esconde-esconde fizeram parte da infância delas! Pena que a tal modernidade furtou o que elas tinham de melhor: a serenidade

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Saí de roxo

Três roxos
Dois morenos e um loiro
Roxos desconhecidos
Rostos sonolentos
Como adivinharam tamanha coincidência?
Roxos de glória ou derrota
Tudo se justificava
Menos a roncha que se encontrava na face

Aquilo que a gente chama de ironia do destino



A hora do rush está me dando certa neurose. Para quem não sabe, esse é o momento em que todas as pessoas decidem sair de suas casas para trabalhar, ir ao colégio, almoçar, voltar para casa, dentre outras obrigações e necessidades. Mas, é no fim da tarde que o bicho pega. E faz o término do expediente perder o seu posto de “momento de glória”, desde que a classe média passou a adquirir, em tempo recorde, carros e motocicletas. As ofertas e condições de pagamento estão diante dos nossos olhos a cada página virada de um jornal, a cada intervalo de uma novela e até mesmo em jingles, fazendo aquelas letrinhas cheias de atrativos entranharem pelos ouvidos. Resultado: veículos aos montes pelas ruas.

Isso tem sido, literalmente, um congestionamento na minha vida. O engarrafamento desanima a minha saída do trabalho. Pior ainda porque sou subordinada ao transporte público. *Se algum paulistano ler este texto, pode até achar meu inconformismo uma tempestade em copo d’água. Afinal, eles adorariam estar na minha situação.

Semana passada, peguei um ônibus lotado. Daqueles que você chega a sentir a respiração do camarada ao lado. Além de todo aperto e suor, ainda tive que me contentar com uma poça de vômito. Argh! O mau cheiro insuportável sofreu para acostumar as narinas. Vi pessoas tapando o nariz e puxando o ar pela boca, numa tentativa de respirar sem sentir o odor. Para completar, o céu do Recife parecia que ia desabar, de tanta chuva que caia. As pessoas subiam com seus guarda-chuvas ensopados e se uniam àquele ambiente de insanidade.

Já havia passado 40 minutos e o ônibus só andara meio metro. Depois, mais vinte minutos parado, intacto, completando uma hora. Os passageiros começaram a descer desesperados. Muitos pareciam búfalos. Outros tentavam se distrair com o aparelhinho de MP3. Santa tecnologia…com tanto desarranjo, o homem precisa mesmo inventar coisas para acalmar os nervos.

Eu também pensei em me livrar do veículo e sair andando em procissão com os outros. Aguentei firme, pois eu tinha conseguido me acomodar numa cadeira. Não é todo dia que se vai sentado, tive que aproveitar a oportunidade, mesmo na pior das situações.

Coloquei minha cabeça para fora da janela, tentando achar o principal culpado de tudo aquilo. Tem que ter alguém responsável por aquele caos. Será o sinal quebrado? Uma batida? Um animal morto no meio da rua? Uma passeata estudantil a favor da diminuição das passagens? Nada encontrei.

Até que, enfim, o trânsito começou a desafogar…E eu pude chegar ao meu destino, a minha faculdade, responsável por me ensinar, dentre outras coisas, a bolar textos para anúncios. Por ironia, uma das coisas a qual me dedico é criar maneiras atrativas de vender carros, novos e semi-novos. Nem é preciso muito esforço para perceber que, quanto mais eu consigo convencer, mais pessoas adquirem automóveis!. De fato, o lucro dos nossos clientes (concessionárias) é o objetivo, bastante satisfatório por sinal. Até eu pegar novamente um trânsito quilométrico e me sentir traída pelo meu próprio trabalho...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Divagação I



- Alci, me ajuda aqui a pensar. Preciso terminar esse job.
- Diz aí! O que é?
- Olha, pensei assim, assim e assado, para dar uma idéia assim, diferente.
- Eu acho que tá muito sério, Déa. Tenta usar o humor. Humor é sempre bom.
- Não dá. Eu não sei fazer humor com o meu mau humor.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Homenagem ao Mestre Vitalino

Das mãos sujas de massapê, uma cultura que fez o mundo admirar
Esculturas do barro exibem a simplicidade da vida
Obras modeladas, inigualáveis e apaixonantes
São encantos merecidos de um artista popular
Sua arte, reconhecida universalmente, é o orgulho de nossa gente.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Isso é só mais um textinho bonito (ou não)




Diploma. Para quê diploma, se ele não me dá bola? Assim que comecei a escrever esse texto, pensei nessa música de Martinho da Vila para expressar um pouco o que sinto. Depois que o STF suspendeu o uso do papel para ingressar na profissão de jornalista, venho incansadamente pensando sobre o assunto. Confesso que fiquei confusa e divergi opiniões. Mas, no fundo, acredito que a suspensão do diploma não vá mudar muita coisa. Para falar a verdade, não sou contra e nem a favor.

As empresas continuarão a dar importância aos formados. Sabe por quê? Porque não entendo como uma pessoa pode exercer qualquer ocupação sem receber o preparo devido. Fechei os olhos e me imaginei chegando numa redação (ou qualquer outra local de trabalho) sem conhecimento algum. Seria o caos! A visão do inferno. Mesmo possuindo grandes profissionais ao meu lado, me enchendo de chicotadas e gritos perversos, tenho certeza que não seria o mesmo, sem o conhecimento teórico (e prático) adquirido na faculdade. *Não quero aqui discutir sobre qualidade. Claro que todos nós sabemos da precariedade dos equipamentos, das salas de aula, etc.

Quero dizer que o jornalismo é muito mais do que se pensam. É muito mais do que ter opiniões sobre determinados assuntos e, por isso, terem a pretensão de escrever artigos, serem comentaristas. Estou falando de um caráter mais sério conferido ao jornalismo, que vai além do pretendido para ele. De onde eu iria partir sem noções de ética, de prioridade de informações, do que eu devo falar, do que eu devo fazer? Iria seguir apenas com o conhecimento repassado? E o meu caráter, cadê? O meu jeito, a minha forma de escrever, de informar, a minha opinião a respeito dos assuntos, do que é preciso e, até mesmo, a formação de um olhar crítico em relação às coisas, que pode muitas vezes ajudar e aprimorar o trabalho. Sem falar que a faculdade era para ser considerada algo precioso, se levarmos em consideração a educação do nosso país. É a partir do diploma que se valoriza aqueles que optaram pelo estudo.

Previsões e indignação são bem-vindas. O assunto é realmente polêmico. Quem for jornalista e não teve uma vontadezinha sequer de expressar sua opinião acerca da obrigatoriedade (ou não), que atire a primeira pedra. Adiplomados, uni - vós!

terça-feira, 9 de junho de 2009

Vós embriagais



Nada melhor como se dispersar dos problemas do dia-a-dia com boas doses de bebida alcoólica. Não importa qual. Pode ser uma vodka, um uísque (particularmente, detesto), uma cervejinha, uma lapada de cana e até mesmo um conhaque de alcatrão. Esse último eu provei recentemente. É angustiante, mas é bom.

O importante é que você esteja bem servido para se livrar daquele pensamento ou problema que tanto lhe atormenta o juízo. O fato é que, nem sempre, isso ocorre da melhor maneira. Não quando você tem uma prova altamente subjetiva para fazer em pleno sábado de manhã. Isso acaba com qualquer pessoa. Saí de casa justamente com o intuito de voltar cedo, com boa aparência! (isso significa dizer: não muito alcoolizada). O objetivo era ver meus ex-colegas de trabalho tirarem de seus instrumentos musicais um bom samba.

Em companhia de um ilustre amigo, iniciei minha noite com doses de Orloff. Foram três, ao todo. Por causa da minha mania compulsiva de mudar de bar, acabamos migrando para outro recinto. As três dosezinhas já tinham começado a fazer efeito no meu sangue, mas, nada demais.

No novo local tocava um blues. Muito agradável por sinal. Convencida de estar sóbria, pedi uma garrafa de cerveja. O som de The Doors se misturava com minhas goladas impulsivas. Pedi mais outra… e outra. Quando vi, já estava no balcão do bar. Pobre destino o meu. Eu e minha companhia naquela noite conversávamos sobre tudo. Diálogos aprazíveis, que se confundiam com as notas de um animal noturno, misterioso e maligno, caso se alimentasse de carne humana. E, costumeiramente, ele se alimentava. Vodka pura no gargalo, depois uma briga de galo.

Passava das 2h, quando aceitei terminar a noite com uma lapada de cana. O meu amigo, maravilhoso que é, teve a brilhante idéia de, antes de virarmos, anunciássemos o nome daquele (daquela ou daquilo) que nos atormentava. Era para falar o nome em voz alta e, depois, acalmar a garganta com a cachaça. E, claro, retardar o arrependimento. Eu não queria, mas eu falei: “Fulano!” (vale salientar que Fulano é apenas um codinome).

Meu deus, por que eu disse isso? Meu amigo parou por um instante. Deve ter achado um absurdo a minha atitude. Conforme o combinado, ele também externou o nome que tanto o incomodava - “Fulana!”, disse ele, com a voz já um pouco incompreensiva. Pareceu um ritual. Fim do copo, o resultado: começo de uma embriaguez. Como eu havia dito no início, eu iria fazer teste no fim da manhã. A bebida resolve tudo, não é? Nesse caso, não. Preocupei-me, juro!

Terminamos de assistir o show. Uma delícia a melodia. Porém minha cabeça começava a pesar e dar sinais. Algo estava errado. A música encerrou, o mestre chamou, mas eu não fui! Talvez acalmaria, relaxaria. Infelizmente, eu não podia. Para casa? Avante!

Pegamos um táxi. O balanço que o carro fazia ia me causando certo enjôo. Buracos desgraçados! Além de acabarem com o carro, acabavam com o meu juízo. Posso dizer que tive péssimas sensações. Um gosto de vômito tomava conta do meu esôfago. E a cara do motorista não era muito interessante. De instante em instante, ele olhava para mim através do retrovisor. Dava-me calafrios. Não iguais aos que o homem da noite me proporcionava. Os calafrios do taxista eram frios demais, desempolgantes, broxantes. Desci do carro. Por mim, descreveria até o modelo do possante, mas o teor de álcool contido em minhas veias não permitia. O caos instaurado. Nada mais podia fazer.

As escadas do meu prédio pareciam rolantes por alguns momentos. Incorporei uma lagartixa, passei super-bonde nas mãos e me agarrei na parede. Enfim, consegui chegar até a porta e abri-la. Até que eu não estava tão ruim assim. Tinha flashes efêmeros de sã consciência.

O êmese já estava por vir e, antes que melasse toda a casa, corri para o banheiro. Aquele conteúdo gástrico saia pela minha boca. Um gosto de cana misturado com tudo aquilo que eu havia comido durante o dia. Minha cara era de barraca. Encostei-me à parede por alguns minutos. Adormeci. A parede dura se assemelhou ao meu colchão D33. Esplendido!. Vale salientar, também aterrorizante.

Mesmo com tudo isso, eu acordei. Levantei-me, ainda cambaleante, escovei os dentes, troquei a vestimenta e cair na cama. Dessa vez foi na cama! Mas não durei muito tempo com a cabeça colada ao travesseiro. Bateu novamente aquela sensação de que algo estava para sair de mim. O meu fígado estava permeável. Só a bile teve vez. Um conteúdo de cor amarelo-esverdeado. Novamente, me levantei. Dormi após.

Não sei se eu sonhei. Eu também não tinha a menor condição de saber.

Às 9h45 meu despertador tocara. Uma música irritante no meu pé do ouvido. Deu-me uma vontade expressiva de jogar o celular, janela a baixo. Felizmente, não fiz isso.
Acordei com uma baita dor de cabeça. Meus músculos da face se contraíam. O enjôo me indicava o que estava por vir. Eu só pensava na minha prova.

Minha mãe me olhou com um cara de reprovação. Perguntou logo o que se passava. Eu, filha boa que sou, disse que tinha ingerido uma pequena quantidade de bebida alcoólica. “Apenas três doses, mãe.” Foi a minha frase feita. Ela ficou especulando o que poderia ter acontecido. Eu apenas curtia a minha ressaca e pensava como eu iria fazer a prova naquele estado deplorável. Com um coração tão bom que tem, minha genitora me deu uma carona até a faculdade, temendo maiores constrangimentos, caso eu pegasse um ônibus. Ainda bem.

Antes de ir até a sala de aula, fiz questão de tomar uma coca-cola. Não inventaram nada melhor para curar a ressaca. O enjôo não passava. Eu tremia. As minhas glândulas sudoríparas soltavam uma substância alcoólica pela minha pele. Suava, enjoava, preocupada. Peguei o elevador que me teletransportou até a sala de aula. O operador era um gay, por demais assanhado. Começou a reclamar do colega de trabalho por ter o deixado mofando naquele cubículo. Fiquei com pena do pobre. “Esse safado, vai me pagar. Sai para beber água e me deixa aqui. Ele vai ver só”, dizia ele, com certa delicadeza, enquanto eu respirava fundo para não vomitar ali mesmo. Eu começava, então, a ter leves impressões de que o meu teste periódico escolar iria ser um fiasco. Não era pra menos.

Quando entrei na sala, o professor nem havia chegado ainda. Fiquei sentada na cadeira, olhando para a cara dos meus colegas. Alguns estudavam, outros ensinavam e uma pequena parcela não entendia o que se passava. Pelo menos eu sabia que iria fazer prova, tinha gente que nem isso. Um camarada chegou de mão dada com a namorada. Pensei comigo: “O amor não é lindo, o amor é cara de pau”. O problema é que o coitado não sabia que naquele dia era a maldita prova. Eu sabia, pelo menos. Esse nome assusta quase todos os estudantes. Digo quase, pois não me assusta mais. Não que eu seja a super inteligente, mas é que, simplesmente, eu a ignoro. Minha ressaca estava aí como prova da minha falta de preocupação.

Até que em enfim, o professor chegou, para alegria da galera, e não da minha. Bufei umas três vezes. Respirei fundo, alonguei os braços e dei duas quebradinhas no pescoço, para um lado e para o outro. Fazia de tudo para que meu cerebelo captasse a melhor mensagem possível a respeito do meu estado físico e emocional. A prova caiu como uma luva em minhas mãos. Chega estava quentinha. Olhei para as questões atentamente. Meus pulmões trabalhavam a todo gás, tentando levar oxigênio para o meu cérebro e fazendo com que eu parasse de me sentir mal. A priori, eu estava muito mal. Quanta sem vergonhice.

Mesmo assim, eu estava disposta a fazer todas as questões. Estavam fáceis. Eu saberia responder todas elas, conscientemente. Cheguei a responder um parágrafo da segunda pergunta. Depois disso, era impossível me manter naquele ambiente. O sol do meio-dia disparava raios solares na minha face, que me irritavam profundamente. Feria nos olhos. Ou eu saia ou eu vomitava. A escolha só poderia ser minha. Eu escolhi sair, claro. Levantei-me, fui até o professor e disse: “Mestre, infelizmente, não tenho condições de fazer a sua prova. Estou passando mal.” Ele, fazendo jus ao cargo de professor de educação cidadã, fez de tudo para que eu permanecesse na sala. “Querida, fique embaixo do ventilador. Vá lá fora e volte. Tome uma água”. Eu, já ofegante: “Professor, não tenho a menor condição de ficar aqui. Não quero passar constrangimentos. Entenda”. Ainda insistente, ele falou: “Tudo bem, mas saiba que você corre o risco de fazer prova final”. Corro o risco? É claro que eu estava ciente de que faria prova final, caso eu largasse tudo ali mesmo. Sem dúvida alguma da minha decisão, eu proclamei: “Professor, eu me responsabilizo pelos meus atos. Pode deixar.” E sai em disparada para o banheiro. Forcei o vômito, enfiando meu dedo na goela. Nada. Nenhum sinalzinho se quer. Fui para o térreo e avistei alguns colegas. Andei para um lado e para o outro, procurando uma saída para aquele mal estar. Até que, opa! Acho que agora sai. Subi correndo ao banheiro novamente. Quando eu menos esperava, estava com a cara enfiada na bacia sanitária. Nesse momento, não sabia se o enjôo vinha de dentro ou de fora. O fedor era insuportável. Aquele odor de urina me sufocava a ponto de eu não mais querer expelir o que tinha no meu estômago. Fui embora daquele lugar nojento, sem ter cumprido o meu objetivo.

Fiquei sentada no banco do corredor. Eu não sabia o que fazer para acabar com aquele mal estar generalizado provocado pelo excesso de bebida alcoólica. Na boca, um gosto amargo. E as mãos trêmulas. Eu não queria fazer mais nada, a não ser deixar o tempo passar. Olhei para as paredes, que traziam grandes placas de conclusão de curso. Cada uma mais feia do que a outra. São execráveis. Por que não contratam um designer? Talvez resolvesse o problema, ou não?

Apenas uma me chamou bastante atenção. Na foto, os formandos, escovados e bem passados, pousavam em frente ao Palácio do Governador. Aquele lugar, pensei, me era bastante familiar. Passei alguns segundos olhando atentamente para a fotografia, sorrindo. Dei gargalhadas compulsivas, assim como fazem personagens de desenho animado. Eu ria incontrolavelmente. Sozinha, eu caí. As escadarias do Palácio do Governador já havia sido palco da minha embriaguez.

* Essa crônica foi baseada em relatos e um pouco de ficção.