Olha a cama do seu pai
O que é que tem?
Tá estranha
Estranha? Como assim? Deixa-me ver
Por que ele fez isso?
Debruçou?
Sim, para quê?
Ah, sei lá. Vai ver ele resolveu virar a vida de cabeça para baixo e fez da cama sua testemunha
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
sábado, 23 de janeiro de 2010
Um olhar sobre a Rocinha
Isso mesmo, a Rocinha.
Assim como você (nem tanto), eu achava que subir em morros cariocas era coisa de novela. Para isso, precisava-se recrutar seguranças e pedir permissão ao chefe do tráfico.
Evidentemente, é assim que a “banda toca” em algumas favelas do Rio de Janeiro, mas existem outras que são possíveis de se visitar.
Ao saber disso, decidi fazer um tour pela Rocinha, umas das maiores e mais bonitas favelas do Brasil, com a ajuda de uma companhia de turismo. Depois que entrei em contato, fiquei bastante ansiosa. Tenho uma ligação muito forte com favelas e, principalmente, com a cultura peculiar de cada uma delas.
Às 14h, eu estava de saída. Antes de chegarmos ao destino, fomos buscar outras pessoas. Ao todo, foram quatro poloneses e dois espanhóis. Eu era a única brasileira...e pernambucana, ainda por cima.
O calor estava doendo no couro. Os turistas mais prevenidos levaram um chapéu. A espanhola, toda vestida de vermelho almodovariano, começou a chiar. Ficou nos primeiros minutos de cara fechada, até o marido dela pedir para cobrir o teto do Jeep com a lona. Eu, lógico, fiquei puta, mas entendi a necessidade estrangeira alheia.
Sim! Esqueci de comentar sobre o nosso guia. Era um italiano alto, de olhos azuis e cabelos totalmente brancos. O sotaque ainda o denunciava, mas seu português era impecável. Mora no Rio de Janeiro há trinta anos e tem nome inglês, John.
No caminho, ele explicou a origem da praia de Copacabana. Reza a lenda que Nossa Senhora tinha aparecido para um pescador naquela mar. Para homenageá-la, ele esculpiu a imagem da santa, que ficou conhecida como Nossa Senhora de Copacabana. Por sua vez, Copacabana é o nome de uma cidade boliviana, que se situa às margens do lago Titicaca. Muitos navios espanhóis, que saiam do Peru e da Bolívia, faziam comercio naquela área.
Outros bairros famosos também foram apresentados pelo guia, assim como a lagoa Rodrigo de Freitas. Cheguei à conclusão que todos os bairros da cidade maravilhosa são dignos de visitação e deslumbre. São ruas bastante arborizadas, sinalizadas e de riquezas históricas que dão vontade de passar o dia inteiro escutando.
Enfim, chegamos ao bairro da Gávea e começamos a subir uma enorme ladeira. De um lado e de outro, imensas mansões corriam diante dos nossos olhos. É impossível não ficar fascinado com a beleza das casas. Mas, à medida que íamos nos aproximando, a pobreza aparecia ao longe...
As casas vão deixando de ter muros altos e arquitetura para serem pequenas moradias, amontoadas, feitas de tijolos. Algumas possuem o privilégio de terem reboco e pintura, outras nem isso.
Ao virarmos à direita, o guia anunciou: “chegamos à maior favela do Brasil”. Olhei para trás... as grandes mansões tinham ficado pequeninas. O contraste deixou de existir. Do alto, quem domina é a comunidade da Rocinha, com seus, aproximadamente, 100 mil habitantes.
A minha vista vagou, tentando fotografar cada detalhe. Crianças com o cabelo pintado de amarelo corriam na rua sem nome. Pessoas subiam e desciam, sem parar, na garupa das motos. Olhei para cima e vi uma senhora estendendo lençóis. Ela sorriu quando notou a minha presença curiosa. Eu devolvi a gentileza.
Enquanto meu sorriso ainda se desfazia, meus ouvidos captavam a informação do guia. Então, por que Rocinha?
Por volta de 1930, naquele lugar existia uma fazenda chamada Quebra-Cangalha. Essa terra começou a ser repartida em pequenas chácaras. Os primeiros moradores que se fixaram ali, para sobreviverem, cultivavam frutas e verduras. Todos os produtos eram comercializados na feira da Praça Santos Dumont. Quando os fregueses perguntavam de onde vinham as frutas e legumes vendidos na praça, todos respondiam “vem da rocinha”.
Após o pequeno histórico, descemos do carro para conhecer trabalhos artísticos feitos por moradores. Um deles, com uma ginga malandra, tipicamente carioca, veio falar inglês comigo. “Hi, my friend. This picture is fifty reais”. Eu disse: “Sou brasileira”. Ele continuou: “Ah, é? Pra você eu faço R$ 40, minha patroa”. Prontamente, respondi “Sou pernambucana”. O vendedor, em desistência, falou “Então, faço R$ 30 pá senhora levar um trabalho meu”. Rimos juntos. O nome dele é Roberto Dantas. O quadro que comprei é uma pintura da favela da Rocinha.
Hoje em dia, todas as moradias possuem água encanada, reservatório e energia elétrica. Deparamos-nos com um grande ninho de fios de um poste. A gambiarra chegava quase no chão. O turista polonês parecia ter certeza de como as coisas funcionam...para os íntimos, o famoso “gato”. “Some people pay and some people not pay.” No entanto, como nos informou o leitor Carlos Costa, morador da Rocinha e diretor geral do jornal Rocinha Notícias, os amontoados de fios não são de "gatos", e sim, das companhias telefônicas que os agrupam excessivamente aproveitando as estruturas dos postes de energia elétrica para sustentação. "São cabeamentos regulares de clientes oficiais da companhias telefônicas. Os gatos são feitos de formas sutis junto aos medidores domiciliares, até porque a Companhia elétrica faz vistorias diárias de forma ostensiva", completou.
A próxima parada foi numa laje. O morador, de tão esperto que é, tratou logo de providenciar um cantinho para que os visitantes tivessem um panorama geral da Rocinha. Boa idéia. A vista é mesmo de arrepiar. Espantei-me com tamanha grandiosidade. Acho que um ano não seria suficiente para percorrer toda a favela.
Depois, andamos durante uma hora e meia, por entre ruas e vielas. As pessoas olhavam de lado, um pouco desconfiadas, mas, no fundo, sei que sentem orgulho de morar em um lugar tão especial. E que, de tão especial, vem gente lá de longe para apreciar.
A Rocinha leva a denominação de uma favela, mas é, sem dúvida, uma cidade dentro do Rio de Janeiro. Quem já viu favela ter Bob´s, Mcdonald´s, Itaú, Caixa Econômica e Brasdesco?
É...para você que ainda não conhece, acho bom derrubar as máscaras do preconceito e olhar de perto o modo de vida de uma cultura diversificada.
Esqueça as incursões policiais, o medo, a pobreza...desenvolva a sensibilidade de perceber o que é realmente belo. Pão de Açúcar e Cristo redentor já não estão com nada. São envelhecedores.
p.s1: No mesmo dia, conhecemos a sede da escola de samba Acadêmicos da Rocinha. Ainda segundo o leitor Carlos Costa, ela está no grupo A (de acesso) e basta ganhar o carnaval em seu grupo para ingressar no grupo Especial (a elite do carnaval carioca). Vamos torcer!
p.s2: Eis uma música do Caju e Castanha em homenagem à favela da Rocinha.
Favela da Rocinha
Quem vem ao Rio
Não se esqueça de passar
Na favela da Rocinha
Que lá é um bom lugar
É uma cidade
Dentro de uma favela
Michael Jackson
Teve nela e muita gente foi olhar
Lá na rocinha
Tem colégio e hospital
Para o povo não passar mal
E criança estudar
Tem uma feira
Que rola o dia inteiro
Tá cheia de nordestino
Ainda vem do estrangeiro
Rocinha hoje
É um acervo cultural
Tem rádio e tem jornal
E tem motel pra se amar
Quatorze creches
Um campo de futebol
Acadêmicos da Rocinha
Representando o lugar
Lá na Rocinha
Se você quiser saber
Digo agora pra você
As belezas que tem lá
Tem celular
Também tem computador
TV a cabo chegou
Para o povão desfrutar
É uma favela
Dentro do Rio de Janeiro
Com fama no mundo inteiro
E virou bairro popular
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
À sombra do sol

Árvore grande no meio do nada
Nem fruto eu sei se ela dá
A única coisa que sei é da menina da pele castigada pelo sol
Que descansa onde os galhos projetam grandes sombras
Alí, ela cochila todas as tardes, após plantar as sementes
Através do sonho, a moça bonita viaja, viaja
Sabe que pode alcançar o céu
Os pés do chão ela não tira
A terra árida não intimida seus dedos delicados
Novos, mas cheios de sofreguidão
Um dia, as coisas hão de se ajeitar
E flores nascerão para mostrarem o caminho
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
“A mãe do Lula”

Dia 1º de janeiro é tediante. A cidade fica calma, os carros e as pessoas desocupam as ruas, o comércio é fechado e a televisão brasileira não passa nada que preste. Então, após comer um R.O, fui tentada a assistir a estréia do filme “Lula, o filho do Brasil”, dirigido por Fábio Barreto.
A sessão estava lotada de pessoas curiosas em confirmar o desastre que é a película ou admirar a sofrida trajetória do nosso presidente.
Começou com uma enorme tela preta e o aviso de que o filme não recebeu nenhuma lei de incentivo para ser produzido. Tudo bem, a gente acredita. Mas nunca antes na história desse país eu vi tanta empresa privada patrocinando um filme. Diante dos nossos olhos, uma lista de marcas subia na tela: Camargo Corrêa, Senai, Grendene, Souza Cruz, Volkswagen, Hyundai, OAS, Odebrecht, Oi, Ambev (sendo representada pela Brahma) e até o grupo EBX, de Eike Batista. As piadinhas do público foram inevitáveis. Deveriam ter tomado muito cuidado com isso, já que de cara incita a não aceitação da crítica (e dos telespectadores, claro).
Aí, vem o segundo grande lance: o filme do Lula não é do Lula! É da mãe dele. A pessoa que mais se evidencia na trama é Dona Lindu.
Fábio Barreto tinha em mãos a matéria-prima de uma história de vida excepcional, merecedora, sem dúvida, de um bom roteiro. Mesmo assim, ele deixou a saga única de um retirante nordestino que chega à Presidência da República, apesar da desigualdade brasileira, ir para o beléu.
“Lula, o filho do Brasil” não convence nem os mais sensíveis. O sertão é sutilmente apresentado e a pobreza não é afetiva. As cenas são quase um déjá vu de outros filmes que envolvem o interior nordestino. Quando criança, Lula parecia um garotinho predestinado à vida política. Como pode?
Sem falar na narrativa, que é linear e bastante convencional. Em uma cena ele é um simples metalúrgico e, em dois minutos, vemos o “futuro do país” discursando como presidente de sindicato.
De um melodrama épico (bastante explicadinho e redundante), o filme se torna cansativo da metade para o final. As imagens da iniciação política já foram vistas por diversas vezes nas matérias da TV Globo. Um amontoado de clichês. Como se justifica uma produção tão decadente dentro de um orçamento de, aproximadamente, R$ 31,6 milhões. Abre parêntese. Desvio de dinheiro? Em tempo, a campanha da Dilma Roussef, daqui a alguns meses, deverá estar recheada de produções cinematográficas. Fecha parêntese.
O filme termina quando Dona Lindu morre e Lula sai do DOPS, após passar um mês comendo o pão que o diabo amassou. A gente subentende isso, pois as ceninhas de Lula levando porrada foram confiscadas. A politicagem é apenas pincelada nos discursos pífios, que não chegam nem próximos da tão bem falada oratória lulista.
Apesar de uma carga dramática, “Lula, o filho do Brasil”, diferente de “Dois filhos de Francisco” (desculpe, a comparação foi involuntária), não conseguiu tirar uma gota dos meus canais lacrimais.
p.s1: esse post não tem nada a ver com minha escolha política, pois, assim como você, também votei em Lula duas vezes seguidas.
p.s2: decidi escrever sobre “Lula, o filho do Brasil” porque ele é ruim. Não tanto quanto “Do começo ao fim”, que, de tão catastrófico, abandonei na metade.
p.s3: de emocionante, só a trilha de abertura intitulada "Jornada", feita por Antônio Pinto.
p.s4: o Brasil está para Lula, assim como Lula está para o Brasil. Lula tem a alma do povo. E é exatamente isso que identifica essa proporção direta e o legitima como “filho do Brasil”.
Para fechar, um poema de Mário de Andrade, do qual me recordei ao ver o filme:
Ode ao Burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar... –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burgês!...
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Prólogo.
A vida é a arte do encontro, já dizia o grande mestre Vinícius de Morais.
Eduardo e Mônica, personagens da música de Legião Urbana, perdem para Anita e Gilberto. Nunca escrevi uma história romântica, talvez por não saber conduzi-la. Sou tão atrapalhada em minhas próprias situações, que dissertar sobre as dos outros seria uma experiência lastimável. Mas, a minha cabeça fervilha e implora por vivências.
Isso! Foi uma vivência que me deu inspiração suficiente para relatar o meu primeiro conto-romance de gaveta. A inexistente relação de Anita e Gilberto era o que havia de mais legal. Este propósito me levou a escrever (e criar) a história. Amor platônico? Fica ao seu critério...
Parte I - O trágico fim.
O fato é que Gilberto levava Anita tão a sério, a ponto de enviar, no meio da madrugada, a seguinte mensagem suicida para uma amiga: “Por que ninguém consegue gostar de mim?”.
Era 1h30. Aline deu um pulo da cama com a frase que acabara de ler. Como ela não sabia decorado de quem era o número, começou a procurar desesperadamente na agenda telefônica. Até que, enfim, chegou no Gilberto.
- “Deve tá bêbado”, pensou ela, voltando a deitar a cabeça no travesseiro para não perder o sono.
Aline já imaginava o porquê de Gilberto enviar a maldita mensagem de madrugada. E ela ficava mais puta da vida quando o seu pensamento era confirmado.
No outro dia, ela o procurou para saber o que diabos tinha acontecido. Aline e Gilberto conversavam bastante por e-mail, já que passavam o dia em seus respectivos trabalhos. Apesar de uma profissão vagabunda de jornalista, eles não eram vagabundos.
Vez ou outra, tinham diálogo e brigas intermináveis a respeito da tal menina que Gilberto se apaixonou perdidamente. Ele não é otário, mas se comportava como um quando falava de sua amada.
- “Que mensagem foi aquela que você me enviou ontem de madrugada?”
- “Desculpa, mas é que eu estava muito mal. E como você é a única pessoa que sabe sobre Anita, sobrou pra você o desabafo. Prometo não fazer de novo.”
- “Tudo bem, mas tá na hora de você começar a esquecer, definitivamente, essa mulher...já chega, Giba”
- “Vi Anita com um cara ontem no show. Ele era feio pra caralho e mais velho do que eu. Não me conformei, surtei e fui embora.”
O p.s do e-mail dizia: 24h sem dormir e cheio de nicotina no sangue. Não sei como essa sexta-feira vai terminar.
Parte II - O início: um show de rock.
Vamos ao começo da história. Um início convencional, do tipo “Era uma vez...”
Gilberto não costumava se arrumar muito para sair. Colocou a velha calça, a blusa frouxa e os sapatos que imploravam para ser doados. Tinha um cabelo comprido, típido de metaleiro.
Foi à rua, como sempre, bastante desanimado. Ele não disfarçava nem a cara azeda. Fazia questão de ser chato mesmo. E não adiantava reclamações, ele iria franzir a testa quando fosse preciso.
O destino daquela noite foi um de show de rock pesado. O lugar estava cheio de gente. Gilberto chegou e foi logo comprar uma cerveja para ser sua companheira. Com os braços cruzados, ficava atendo olhando ao seu redor.
Ele era um rapaz bastante observador, tinha uma olhar crítico em relação a tudo. O pessimismo também lhe acompanhava. Nada parecia estar bom. Sempre havia algo para criticar.
Gilberto resolveu, então, dar uma circulada. Encontrou com uma amiga da época de colégio. O nome dela era Amanda. Os dois conversavam harmoniosamente. Gilberto até se engraçou para o lado dela, resolvendo investir na moça. Mas uma terceira menina cruzou o seu caminho. Giba olhou fixamente para ela, que caminhava seriamente em sua direção. Por uns segundos, a vista dele escureceu. Ele entrou em transe ao ver aquela bela moça dos olhos verdes e do cabelo preto. A lata de cerveja, cheinha, quase caiu no chão com a tamanha demência. “Minha nossa”, suspirou.
- “Oi gente.”, disse a bela moça dos olhos (surpreendentemente) verdes.
- “Giba, esta é Anita, minha amiga da faculdade”, esclareceu Amanda.
Mesmo contente, Gilberto não conseguia se expressar. Estendeu uma mão com o cigarro acesso e a lata de cerveja na outra. Deu um sorriso de lado, apenas. Anita ficou meio sem graça.
- “Ele é sério, né?”, cochichou para a amiga.
- “Não, ele só tem essa casca grossa, mas é gente boa. É só não falar merda pra ele e fica tudo certo.”
Mal sabia Amanda que, mesmo se amiga falasse merda, ele continuaria encantado. Gilberto e Anita passaram a noite conversando. O assunto era diverso. Falavam sobre bandas favoritas, o que gostavam de fazer e o que faziam de suas vidas. Ela havia acabado de entrar na faculdade de ciências sociais e ele já era formado há tempo em jornalismo. As notas das músicas do rock pesado reverberavam um sentimento que jamais havia existido. Era como se o mundo havia acabado ali, restando apenas os dois. Aquela noita ia ficar marcada. Gilberto, que já estava desesperançoso com mulheres, se viu estimulado. Os dois se deram bem. Mas, por enquanto, nada de paixão.
No outro dia, o celular de Anita tocou logo cedo.
- “Oi, desculpa te acordar. Passei a noite pensando em você e resolvi te ligar.”
Giba não costumava ser romântico e, muito menos, meloso, a ponto de fazer riminhas nas frases. Mas, na noite anterior, tinha prometido para si mesmo que iria “agarrar” Anita.
- “Poxa, eu estou dormindo. Liga uma outra hora.”
- “Mas, é que...”
Tudo o que Giba ouviu foi o som ocupado do telefone. O coitado havia treinado a madrugada todinha para fazer a ligação. Começou a andar de um lado para o outro no quarto, pensando como poderia ser a próxima abordagem. Apesar da mancada, ele não desistiu. Esperou a hora do almoço e retornou.
- “Oi, sou eu de novo...”
Anita ainda não estava acordada, mas seu sono era leve. Ela atendeu o telefone sonolenta, sem saber direito com quem estava falando.
- “Você? Quem?”
- “Sou eu Anita, o Giba!
(Filho da puta, pensou ela.)
- “Ah...tudo bom?”.
- “Tudo. Te liguei pra gente ir tomar sorvete.”
- “Olha, eu ainda nem almocei.”
- “Então, vamos almoçar?”
- “Minha mãe fez almoço farto hoje. Não posso fazer essa desfeita.”
- “Tudo bem. Ligo outra hora”
- “Tá...”
- “Beijos.”
- “Outros.”
Na noite anterior, Anita até havia se interessado pelo rapaz. Só que a insistência dele logo de cara não foi legal. Ela começava a pegar abuso, enquanto ele se apaixonava...
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Parte III – A conversa ainda perdura.
A noite, no msn, Anita e Gilberto enfim conversaram. O nick dele era direto e prepotente: Giba – todo começo é angustiante. Já o dela era apenas Anita, com a simplicidade de uma garota. O diálogo estava indo bem, mas Gilberto acabava estragando tudo por causa de suas flertadas sem graça.
- “Ah, sou fã de Ozzy Osbourne”, comentou Anita.
- “É, eu detesto, mas você é linda mesmo assim.”
- “Quanta gentileza”, disse ela, respirando fundo.
- “Ei, vamos sair?”
- “Vou aqui tomar água...”
Anita se saiu, queria mesmo despistar o “mela cueca”. Gilberto ficou lá à espera da amada, firme e forte. Ele estava de olhos perdidos na tela do computador e suava de tanta ansiedade. Era uma paixão que nem ele mesmo sabia de onde vinha. Sempre achava esses sentimentos uma grande besteira.
- “Iai, decidiu?”
- “Eu estou de TPM! Você não se incomoda?”
- “Não tem problema, eu adoro mulheres de TPM.”
- “Sabe qual é a diferença entre uma mulher de TPM e um pitibull?”
- “Não”
- “O batom”
Giba caiu na gargalhada.
- “Olha, até com TPM você é sensacional. Desculpe, mas vai ser muito difícil ter raiva de você.”
- “Você não me conhece pra tá dizendo isso. Vai se arrepender.”
- “Eu quero tentar me arrepender.”
“E se eu te mandar tomar no cu?”, pensou ela. Giba não se tocava, parecia um retardado. Sua paixão ia além do estado natural das coisas e até da sua própria personalidade.
Anita já não aguentava mais as piadinhas idiotas. Decidiu, então, fazer um sacrifício. Ela optou por falar na cara dele que ele era um otário, tinha um bigode de nazista nojento e um cabelo de fazer doer o estômago. O sistema nervoso já havia trabalho bastante. Anita gostava mesmo era de homens peludos.
Parte IV – Abre os olhos.
Cinco horas da tarde. Gilberto estava de pé, esperando em frente à pracinha que ele havia combinado com Anita. Ela chegou apressada, anunciando que não podia passar muito tempo por ali, pois precisava voltar para casa logo.
- “Mas Anita, é a primeira vez que a gente se encontra.”
- “Olha, não discute.”
- “Sua TPM não vai me intimidar.”
- “Eu tenho uma coisa pra te dizer.”
- “É mesmo? Você tem namorado?”
- “Quem dera...seria tudo muito mais fácil.”
- “Fala logo.”
- “Nós somos diferentes.”
- “Diferentes? Não, não somos. A gente até gosta das mesmas bandas, você viu!”
- “Não é disso que estou falando.”
Gilberto olhou para Anita desconfiado.
- “Você é um otário, tem um bigode de nazista nojento e um cabelo de fazer doer o meu estômago.”
- “Hey, vamos parando. Não vou deixar que você me ofenda. Estou aqui com todo amor pra dar. Qualé?”
- “Tenho que ir.”
- “Peraí, você tá com um fio enorme na bochecha. Deixa eu ver”, disse ele, tentando puxá-lo.
- “Não toque aqui.”, gritou ela, colocando a mão no rosto.
Quando Anita se virou, Giba notou que nascia um rabo no lugar da bunda. Ele ficou paralisado, olhando aquele fenômeno transformista (hollywoodiano) diante dos seus olhos. Antes mesmo que saísse alguma palavra de sua boca, a revelação veio à tona.
- “É isso mesmo, eu sou uma lobiwoman.”
- “Uma lobi o que?”
- “Isso, uma lobiwoman. Agora, preciso ir. Você não vai gostar de ver o efeito completo.”
Anita saiu correndo. Gilberto ficou em estado de choque. Seu rosto estava flácido e a baba descia no canto da boca. O coração estava acelerado. O amor havia se tornado ainda mais intenso.
Parte V - Nem todo fim é o fim.
Gilberto acessou a página do google e digitou a palavra “lobisomem” no campo de busca. Apareceram milhares de opções na pesquisa, incluindo sites sobre filmes, livros e jogos de RPG. O blog “infernorama” parecia a fonte mais confiável sobre o assunto. Lá ele encontrou todos os detalhes da maldição da lua cheia.
Depois de ler tudo e se inteirar do tema, ele ligou para Anita várias vezes, mas ela não atendeu. Deixou recado, mandou mensagens, e esperou por várias horas e nada. Então, resolveu ir ao prédio dela. Pediu para o porteiro interfonar, mas ninguém atendeu no apartamento.
Foi aí que ele atravessou a rua, caminhou até uma pequena praça que ficava em frente ao prédio e sentou-se em um dos bancos. Então percebeu que era noite de lua cheia, por isso Anita não estava em casa. Ela havia se transformado e tinha saído noite adentro. Gilberto preferiu não pensar no que ela estava fazendo solta por aí na forma de lobo, mas sabia que precisava esperar até o amanhecer para encontrá-la.
Ficou no banco da praça até de manhã. Por volta das 6 horas, um táxi parou em frente ao prédio e Anita desceu. Gilberto correu em sua direção e gritou seu nome.
- Você? Que porra tá fazendo aqui? – disse a menina, assustada. Ela estava toda suja e com as roupas rasgadas.
- O que houve com você?
- Você sabe o que houve. Eu lhe mostrei.
- Mas e suas roupas?
- Eu virei um lobo, idiota. Por isso minhas roupas rasgaram – gritou ela, batendo em Gilberto com sua bolsa.
- Algum problema, dona Anita? – perguntou o porteiro, da guarita do prédio.
Não. Tudo bem – respondeu ela. – Agora vá embora, Gilberto.
- Eu li sobre seu problema. Talvez eu possa te ajudar.
- Você acha que se tivesse cura, eu já não teria feito? Vá embora – pediu ela, e então, entrou no prédio.
Gilberto ficou olhando ela subir as escadas. Então ele se deu conta de que estava realmente apaixonado. E se não tivesse cura para ela, teria para ele.
Gilberto estava disposto a se transformar em lobisomem. Ficou pensando o que diria a seus pais quando eles descobrissem ou se a mordida de um lobisomem doía muito. Mas por amor, ele faria tudo.
A noite, no msn, Anita e Gilberto enfim conversaram. O nick dele era direto e prepotente: Giba – todo começo é angustiante. Já o dela era apenas Anita, com a simplicidade de uma garota. O diálogo estava indo bem, mas Gilberto acabava estragando tudo por causa de suas flertadas sem graça.
- “Ah, sou fã de Ozzy Osbourne”, comentou Anita.
- “É, eu detesto, mas você é linda mesmo assim.”
- “Quanta gentileza”, disse ela, respirando fundo.
- “Ei, vamos sair?”
- “Vou aqui tomar água...”
Anita se saiu, queria mesmo despistar o “mela cueca”. Gilberto ficou lá à espera da amada, firme e forte. Ele estava de olhos perdidos na tela do computador e suava de tanta ansiedade. Era uma paixão que nem ele mesmo sabia de onde vinha. Sempre achava esses sentimentos uma grande besteira.
- “Iai, decidiu?”
- “Eu estou de TPM! Você não se incomoda?”
- “Não tem problema, eu adoro mulheres de TPM.”
- “Sabe qual é a diferença entre uma mulher de TPM e um pitibull?”
- “Não”
- “O batom”
Giba caiu na gargalhada.
- “Olha, até com TPM você é sensacional. Desculpe, mas vai ser muito difícil ter raiva de você.”
- “Você não me conhece pra tá dizendo isso. Vai se arrepender.”
- “Eu quero tentar me arrepender.”
“E se eu te mandar tomar no cu?”, pensou ela. Giba não se tocava, parecia um retardado. Sua paixão ia além do estado natural das coisas e até da sua própria personalidade.
Anita já não aguentava mais as piadinhas idiotas. Decidiu, então, fazer um sacrifício. Ela optou por falar na cara dele que ele era um otário, tinha um bigode de nazista nojento e um cabelo de fazer doer o estômago. O sistema nervoso já havia trabalho bastante. Anita gostava mesmo era de homens peludos.
Parte IV – Abre os olhos.
Cinco horas da tarde. Gilberto estava de pé, esperando em frente à pracinha que ele havia combinado com Anita. Ela chegou apressada, anunciando que não podia passar muito tempo por ali, pois precisava voltar para casa logo.
- “Mas Anita, é a primeira vez que a gente se encontra.”
- “Olha, não discute.”
- “Sua TPM não vai me intimidar.”
- “Eu tenho uma coisa pra te dizer.”
- “É mesmo? Você tem namorado?”
- “Quem dera...seria tudo muito mais fácil.”
- “Fala logo.”
- “Nós somos diferentes.”
- “Diferentes? Não, não somos. A gente até gosta das mesmas bandas, você viu!”
- “Não é disso que estou falando.”
Gilberto olhou para Anita desconfiado.
- “Você é um otário, tem um bigode de nazista nojento e um cabelo de fazer doer o meu estômago.”
- “Hey, vamos parando. Não vou deixar que você me ofenda. Estou aqui com todo amor pra dar. Qualé?”
- “Tenho que ir.”
- “Peraí, você tá com um fio enorme na bochecha. Deixa eu ver”, disse ele, tentando puxá-lo.
- “Não toque aqui.”, gritou ela, colocando a mão no rosto.
Quando Anita se virou, Giba notou que nascia um rabo no lugar da bunda. Ele ficou paralisado, olhando aquele fenômeno transformista (hollywoodiano) diante dos seus olhos. Antes mesmo que saísse alguma palavra de sua boca, a revelação veio à tona.
- “É isso mesmo, eu sou uma lobiwoman.”
- “Uma lobi o que?”
- “Isso, uma lobiwoman. Agora, preciso ir. Você não vai gostar de ver o efeito completo.”
Anita saiu correndo. Gilberto ficou em estado de choque. Seu rosto estava flácido e a baba descia no canto da boca. O coração estava acelerado. O amor havia se tornado ainda mais intenso.
Parte V - Nem todo fim é o fim.
Gilberto acessou a página do google e digitou a palavra “lobisomem” no campo de busca. Apareceram milhares de opções na pesquisa, incluindo sites sobre filmes, livros e jogos de RPG. O blog “infernorama” parecia a fonte mais confiável sobre o assunto. Lá ele encontrou todos os detalhes da maldição da lua cheia.
Depois de ler tudo e se inteirar do tema, ele ligou para Anita várias vezes, mas ela não atendeu. Deixou recado, mandou mensagens, e esperou por várias horas e nada. Então, resolveu ir ao prédio dela. Pediu para o porteiro interfonar, mas ninguém atendeu no apartamento.
Foi aí que ele atravessou a rua, caminhou até uma pequena praça que ficava em frente ao prédio e sentou-se em um dos bancos. Então percebeu que era noite de lua cheia, por isso Anita não estava em casa. Ela havia se transformado e tinha saído noite adentro. Gilberto preferiu não pensar no que ela estava fazendo solta por aí na forma de lobo, mas sabia que precisava esperar até o amanhecer para encontrá-la.
Ficou no banco da praça até de manhã. Por volta das 6 horas, um táxi parou em frente ao prédio e Anita desceu. Gilberto correu em sua direção e gritou seu nome.
- Você? Que porra tá fazendo aqui? – disse a menina, assustada. Ela estava toda suja e com as roupas rasgadas.
- O que houve com você?
- Você sabe o que houve. Eu lhe mostrei.
- Mas e suas roupas?
- Eu virei um lobo, idiota. Por isso minhas roupas rasgaram – gritou ela, batendo em Gilberto com sua bolsa.
- Algum problema, dona Anita? – perguntou o porteiro, da guarita do prédio.
Não. Tudo bem – respondeu ela. – Agora vá embora, Gilberto.
- Eu li sobre seu problema. Talvez eu possa te ajudar.
- Você acha que se tivesse cura, eu já não teria feito? Vá embora – pediu ela, e então, entrou no prédio.
Gilberto ficou olhando ela subir as escadas. Então ele se deu conta de que estava realmente apaixonado. E se não tivesse cura para ela, teria para ele.
Gilberto estava disposto a se transformar em lobisomem. Ficou pensando o que diria a seus pais quando eles descobrissem ou se a mordida de um lobisomem doía muito. Mas por amor, ele faria tudo.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Vai bem aos ouvidos.

Eu ainda não tinha postado nenhuma crítica aqui neste blog. Como estou procrastinando o próximo post há algum tempo, resolvi colocar um texto que escrevi sobre o novo CD de Otto.
Assim, mato três coelhos com uma tacada só: o blog não fica velho e ainda ganha um texto de estilo diferente e pessoas não pertubam o meu juízo. :)
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Após seis anos de espera, eis que os fãs de Otto podem, finalmente, desfrutar de uma nova produção autoral. “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” é o nome do recém-lançado 7º álbum do artista, que também traz a essência do batuque futurista e brota dos mangues recifenses, como os anteriores. O CD foi co-produzido por Pupilo (batera da Nação Zumbi), contém dez faixas e está recheado de participações especiais, tais como Catatau (líder da banda Cidadão Instigado), Céu, na faixa “O Leite”, Julieta Venegas, nas faixas “Lágrimas Negras” e “Saudade”, além de Dengue (baixista da Nação Zumbi) e Lirinha (líder da banda Cordel do Fogo Encantado).
O último disco, “Sem Gravidade” (2003), deixando de lado a gravação do MTV Apresenta (2005), não chega nem aos pés do atual trabalho. Aos que acham que Otto tem uma péssima dicção e não canta nada, sugiro que comecem a abrir uma exceção. O ex-mangueboy, pela primeira vez, consegue abortar um material de qualidade, com música de letras poéticas e que, principalmente, fazem sentido, alinhadas a bons arranjos de cordas.
“Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” fala de amor, não aquele obsessivo, mas algo mais simples, humano e fraterno. A fraternidade, por exemplo, aparece na música brega “Naquela mesa”, regravação de Sérgio Bittencourt. Com a base constituída por um som cafona de teclado, a letra narra as lembranças do filho sobre um pai ausente. No estilo de cantar, Otto traz à memória artistas como Benito di Paula, Luiz Ayrão e Agepê. Um brega de luxo, como os de antigamente.
Os batuques de origem manguebeat aparecem com intensidade em “Janaína”, uma letra em devoção à Iemanjá. A faixa “Meu mundo”, com participação de Lirinha, também possui batidas eletrônicas típicas da ex-banda Chico Science e Nação Zumbi.
Mas é depois de "Lágrimas Negras" que a composição musical começa a complicar. É o caso da música "Agora sim", onde ouvimos "Agora sim o saci, agora são dois irmão, agora posso correr, agora preste atenção". Será uma ode ao saci pererê? Bom, fica a questão. Já a desafinada acontece em “Filha”, quando o cantor parece não ter encontrado a nota adequada para a sua voz.
Considerando que o álbum foi gravado em um esquema de independência, sem a mão de uma gravadora e em conjunto com o Garage Band - programa que emula recursos de gravação e mixagem de um estúdio - Otto consegue realizar um trabalho autoral de qualidade e intenso. Na capa, o cantor parece fazer uma relação do mangue com os possíveis sonhos intranquilos. O título é uma transcrição da frase que abre o texto “A Metamorfose”, do escritor de ficção Franz Kafka (1883-1924): “Quando certa manhã Gregor acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Resta saber em que momento e qual foi a experiência que Otto passou para se identificar com esse verso tão profundo.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Eu não preciso ouvir tua voz para saber o que você me diz
Prefiro o seu silêncio sem interrupções
O som das suas canções eu substituí pela calma
Desculpe, meu coração ainda palpita
Fica mais acelerado quando o meu pensamento se agarra ao seu
Eu sinto as saudades
Mas não quero despertar para o pesadelo
Para as atrocidades de noites amadas sem coragem
Para tristezas que passam a correr a sua revelia
Continue no silêncio e me fará feliz
Prefiro o seu silêncio sem interrupções
O som das suas canções eu substituí pela calma
Desculpe, meu coração ainda palpita
Fica mais acelerado quando o meu pensamento se agarra ao seu
Eu sinto as saudades
Mas não quero despertar para o pesadelo
Para as atrocidades de noites amadas sem coragem
Para tristezas que passam a correr a sua revelia
Continue no silêncio e me fará feliz
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Sensações de um lugar

A vegetação rasteira do interior de Pernambuco passa rapidamente diante dos meus olhos. Tudo muito verdinho, contrastando com o céu azul. Azul também é a cor do mar, já dizia o grande Tim Maia. Percebo as diferentes tonalidades quando vai chegando próximo à via costeira. A praia aparece de mansinho, entre algumas árvores. Sinto o cheiro de maresia, anunciando o lugar, e logo a cabeça se torna espiã. Procura, procura até achar a grande protagonista, que tem o poder de deixar as pessoas libertas. O ambiente praieiro transpira poesia e musicalidade. O sopro do vento é que nem um blues de qualidade aos ouvidos. Dispenso as sandálias para que nada interrompa o momento do contato. Eis que a areia se junta aos meus pés descalços. Mais alguns passos à frente e sinto a água salgada. Meus pés sábios notam facilmente o sal. Começam a coçar desesperados. Maldita alergia. Alergia? De mar? Como se pode desprezar algo que proporciona intensas emoções? Meus pés são burros, isso sim. Mesmo assim, não me reprimi. Pulei as ondas, agarrei-me ao mar.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Versinho de uma tarde
Instantes que o tempo não apaga
A consciência peca ao pensar
A indiferença diz que sim
Mas as lembranças não permitem a vivência
Do mal que faz, ninguém irá me socorrer depois.
A consciência peca ao pensar
A indiferença diz que sim
Mas as lembranças não permitem a vivência
Do mal que faz, ninguém irá me socorrer depois.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Exceção
As pernas frágeis mal conseguiam passar debaixo da roleta
O moleque sabia que de graça ele ia
Pudera, a idade permitia
Passou um, depois o outro e, por último, a menininha dos cabelos de cachos miúdos
Se contorciam para justificar o direito de ir sem pagar
Um espetáculo circense, mas sem aplausos
Atrás, a mãe vinha contente
“São seus?”, alguém perguntou
“É sim. Tenho três bênção”, respondeu ela
Regras que não merecem ser seguidas
A concordância nominal perdeu para tanto orgulho
às 18h43 de um dia pouco engarrafado.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Da próxima vez, vá de táxi.

Dessa vez não teve elevador, fui de escada mesmo. São dois para atender um prédio inteiro, mas quando um inventa de quebrar, é, no mínimo, dez minutos de espera. Ainda tenho a sorte de ter que descer apenas um andar para chegar ao térreo. A história que me disponho a escrever não é exatamente essa. Começa assim, de mansinho. Dou boa noite ao porteiro, como sempre, e ele, gentilmente, me oferece um bom feriado. Opa, feriado? Maravilha! Já saí contente em direção a minha casa. E, de tão feliz, resolvi pegar um táxi por motivos pessoais de segurança. Tanta felicidade poderia acabar se transformando numa lástima.
Tinha um ponto de taxistas logo em frente. Fui até um deles.
- Vamos pra Casa Amarela!
Eu disse isso numa empolgação tão grande, que o taxista se mostrou super disposto para me levar ao destino.
- “Até que o trânsito tá tranquilo por aqui” – eu falei.
- “Tá senhora. Com esse feriado, muita gente já viajou. Daqui a pouco aporta um navio cheio de gringo no Porto do Recife.”
- “Ah, é? Que navio?”
- “O Pacific” - disse ele, cheio de orgulho.
O taxista já era de idade, magro, baixo, quase perdendo os cabelos, e ainda lhe faltava um dente na acarda dentária inferior.
- “Eu soube que já foram vendidos quase todos os pacotes turísticos para cá. Final de ano vai bombar de gente. Os hotéis já estão todos lotados para os festejos de fim de ano.”
Apesar de, assim como ele, estar informada a respeito do boom turístico da nossa cidade, fiquei feliz por ter escutado isso dele. Não por achar que taxistas são alienados, mas, naquele momento, senti uma confirmação de que meu trabalho, e dos meus colegas, estava atingindo o seu objetivo. A população está sentido a efervescência do turismo, deixando as críticas de lado. Então, continuei:
- “Isso vai ser muito bom pro senhor, né?”
- “Para mim e para você também.”
- “É” – falei, tentando buscar a resposta.
- “A senhora faz o que?” – continuou ele.
- “Eu? Sou jornalista.”
- “Meu deus, será a futura Fátima Bernardes? Tenho muito orgulho de estar transportando a senhora neste momento.”
An? Fátima Bernardes? Não!, gritei silenciosamente. Eu não sou ninguém, meu senhor. E nem sei se pretendo ser. Dei aquela resposta que todo mundo dá, acompanhada de sorrisinhos:
- “Deus te ouça. Chego nem perto.”
E ele, claro, também deu uma resposta costumeira:
- “Quem sabe? Você ainda tem muita estrada pela frente. Vocês mulheres são muito fortes. Sem vocês, nós homens não viveríamos. Sabe aquela música que diz, por trás de um homem tem sempre uma grande mulher? Isso é a mais pura verdade.”
Eu apenas consenti, olhando para frente e admirada com o trânsito que acabara de presenciar nas imediações da Abdias de Carvalho. Mas, percebi que na conversa ele partiu de um extremo a outro. O que tem a ver o fato de eu ser jornalista e a fama das mulheres serem fortes? O pior que ele estava certo. E o taxista continuou:
- “Eu já namorei uma menina que fazia medicina. E eu vivia lá no centro de saúde da Universidade Federal de Pernambuco. Uma vez assisti a uma aula. Tinham dois corpos abertos, um de um homem e outro de uma mulher. Mas, olhe, a senhora precisava ver como eu e você somos diferentes por dentro.”
- “É né, só o fato de termos útero e ovário” - falei
- “Pois é. Nós temos três camadas a mais de gordura.”
Nem contestei, até porque eu odiava biologia na época colegial. Sei de merda nenhuma.
- “Olhe, moça, vou dizer uma coisa. A gente pode ter toda a massa muscular, ser forte pra carregar botijão de gás, mas o homem morre cedo. Por isso que tem tanta viúva véia por aí.”
Soltei um sorriso acanhado de lado. Ele notou e também achou graça, perguntando meu nome em seguida. Depois, continuou indagando sobre o que eu fazia. Eu resumi um pouco.
- “Ah, você já cobriu policia?”
- “Já sim, mas foi por pouco tempo” – respondi
- “Poxa, não disse que é orgulho pra mim te levar no meu carro.”
Nesse momento, me senti a própria Gloria Maria. Ou Fátima Bernardes, como ele tinha dito? Continuei:
- “Fazer matéria policial é barra. Vi cada coisa horrível em um curto espaço de tempo.”
“É, né? Imagino. E como a senhora agüentava ver tanto sangue?”
- “No começo é foda, mas depois você se acostuma. Eu sentia muito quando era gente inocente que morria atropelado ou era assassinado por motivo fútil. Uma vez tive que engolir o choro com um jovenzinho que morreu indo à escola.”
- “Ow, rapaz. Teve uma vez que eu vi algo parecido na rua em que eu morava. Um menininho, amigo da minha filha. Ele era novo, vivia na rua. Uma coisa que eu não deixava era minha filha solta na rua. Esse menino um belo dia inventou de mexer num pneu de um caminhão da Coca-Cola que tinha parado para abastecer um mercado. Sendo que o motorista não viu e passou em cima da cabeça do menino.”
Isso não é história para se contar em plena sexta-feira, véspera de feriado. Fiquei angustiada. Mas, escutei atentamente as histórias que Saulo, o taxista, tinha a me dizer. A partir daí começava uma série de matérias, digamos, tipo Cardinot ou Sem meias palavras...
- “Já vi muita coisa. Fui caminhoneiro. Vi companheiro meu arder em chamas e eu sem poder fazer nada, a não ser continuar minha jornada.”
- “Putz" – foi a única coisa que consegui expressar.
- “Tive dezessete motos. Vinte amigos meus já foram enterrados. Teve um que bateu com a moto na minha frente. Foi em cheio no muro. Me mijei todinho nas calças. Fui correndo avisar aos pais dele. Quando cheguei, pareceu que todo mundo já tinha notado que algo havia acontecido. Ai eu falei: ‘o filho de vocês acabou de morrer’.
- “O senhor falou desse jeito sem nem ter ido olhar?”
- “A senhora precisava ver. Eu nem pensei em parar. Quando eu voltei ao local, tinha massa encefálica até na parede.”
- “Minha nossa...você tem espírito de jornalista policial.”
Saulo deu gargalhadas, sem entender muito o sentido que eu dei a suas falas. Então, ele continuou a falar de outras tragédias na sua vida. Chegou a dizer que há duas semanas foi até a casa de um amigo que há muito tempo não via.
- “Cheguei, bati palmas diversas vezes. Gritei por ele e nada. Queria conversar, contar um pouco como estava a minha vida e saber da dele também. Foi quando, então, o vizinho, que eu também conhecia, apareceu no portão e disse: ‘Tas procurando Marcinho?’. Tô, eu disse. ‘Tas sabendo não?’ O que houve? ‘Marcinho morreu em março desse ano’.
- “Ai” – disse eu, colocando a mão na cabeça.
- “Sabe como ele morreu? Ele tava voltando de uma viagem a trabalho, pela estrada. Aí, uma das rodas se soltou e ele perdeu o controle da direção, caindo logo em seguida numa ribanceira. Havia quatro pessoas no carro, só ele morreu.”
- “Quando chega a hora, é pra ser.”
Que comentário medíocre o meu, diante de um homem que se mostrava tão sábio.
- “É verdade. Feito uma amiga minha, a Aninha. Tava grávida de quatro meses a bichinha. Vinha dirigindo uma moto pela Boa Vista e bate de frente com um ônibus, que jogou ela longe. Ainda bem que ela não sofreu, morreu na hora.” – completou ele.
Eu, novamente, elevei as sobrancelhas, com um ar meio assustado, e consenti. Saulo foi até a minha casa contando tudo, detalhe por detalhe. E eu, por diversos momentos, ia escrevendo matérias com os meus pensamentos, apesar de muito cansada. Até que poucos minutos depois...
- “Pronto, senhora, está entregue. Estou agradecido por ter tido você como minha passageira, uma moça que gosta de conversar e, principalmente, sabe escutar.”
- “Ô, Seu Saulo, não precisa tanto. Adorei suas histórias. Boa noite.”
- “Boa noite.”
Em casa, papel e caneta a postos.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Sinceridade
Sincero é aquele capaz de machucar a própria alma
Não falta uma palavra sequer no discurso
Tudo flui.
Não há perguntas ou dúvidas no ar
Não há reticências
Só pontos finais
Se contestar, perde-se o brilho
Perde-se a sinceridade
Não falta uma palavra sequer no discurso
Tudo flui.
Não há perguntas ou dúvidas no ar
Não há reticências
Só pontos finais
Se contestar, perde-se o brilho
Perde-se a sinceridade
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Recanto
Voz de melodia envolvente
Aguça a audição
Desperta sensações
Até o tempo se poupa por instantes
A sonoridade tranqüiliza a alma
Transcende aos desejos mais proibidos
Os olhos se fecham para o sentido se fazer existir
Na mente, a realidade vai sendo transportada
Desfaz o medo e consegue chegar ao puro sentimento
Que só quer ficar calado em nosso recanto
Aguça a audição
Desperta sensações
Até o tempo se poupa por instantes
A sonoridade tranqüiliza a alma
Transcende aos desejos mais proibidos
Os olhos se fecham para o sentido se fazer existir
Na mente, a realidade vai sendo transportada
Desfaz o medo e consegue chegar ao puro sentimento
Que só quer ficar calado em nosso recanto
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Não há decepção maior de um ser humano do que a covardia alheia. Apesar de ser uma única palavra, ela abrange vários significados. Covardia é sinônimo de fraqueza, de ausência de amor próprio, de indelicadeza. Uma pessoa covarde é incapaz de ter qualquer sentimento, de demonstrar amor... tudo isso são privilégios dos corajosos. É um medo consentido de alguém desprovido de força. É uma pessoa cruel, fria, que não consegue viver em harmonia consigo mesma, que vive traindo-se e traindo as pessoas que o cerca. Falta de caráter é o primeiro sinal, onde se peca pelo silêncio, ao invés de manifestar-se. O covarde se esconde atrás da verdade que não consegue enxergar. A covardia é cega. Quem é covarde não é digno, sequer, de felicidade.
sábado, 17 de outubro de 2009
O dia em que Luís Hernandes resolveu mudar
Fim de tarde. Lá, no mesmo lugar, estava Luís Hernandes à espera do coletivo para ir ao curso. A rotina cansada era a mesma há três anos. Cruzava sempre com as mesmas pessoas na parada de ônibus, pegava o transporte com o mesmo motorista, o trajeto não mudava nunca, as aulas pareciam eternas. Até a namorada estava lhe causando certo repúdio. Brigas se tornaram freqüentes, desde que ele voltou de férias do Maranhão. E a conta de telefone passou a vir exorbitante...
Naquele dia, Luís Hernandes saiu de casa com gosto de gás. Decidido a tornar sua vida diferente. Mudar era a palavra-chave. As primeiras alterações começaram nas peças de roupas. Nada que ele passou a usar era costumeiro. Vestiu-se com uma camisa mais arrojada, um tênis All Star e uma bermuda bem transada (imaginem como quiser). Aquilo não era a cara dele, mas o sentimento de transformação falava mais alto. Bem mais alto.
A pasta que costumava carregar foi trocada por uma bolsa Adidas, dessas à tiracolo. O cabelo ganhou um topete simpático e gel para modelar os fios loiros das luzes que fez. Perfume no cangote e nos pulsos. Pronto. Pelo menos nas vestimentas, Luís aparentava ser outra pessoa.
Ao chegar na parada, a menina que sempre virara a cara para ele respirou fundo, sentindo o cheiro delicioso do perfume do novo rapaz. A jovem tinha os cabelos compridos, corpo de dar inveja a qualquer mulher e olhos cor de mel. De fato, Luís era caidinho por ela, mas dar bola a essa altura do campeonato mudaria os planos. Saiu de fininho e foi para o outro lado. A menina, claro, achou logo que ele fosse veado.
Enfim, chegou o ônibus de Luís Hernandes. Ele entrou pisando firme, emitindo barulho na lataria do veículo. O motorista (de sempre) chega se assustou com a ousadia do garoto.
- “Bom dia”, disse o motorista
- “Ahê, motô”, respondeu Luís, sentando na última cadeira.
O jeitão esparramado era meio forçado. A encenação terminou com a famosa coçadinha no saco. O cobrador virou a cara, com ar de reprovação. Três minutos depois o celular tocou. Era a sua namorada perguntando porque ele ainda não havia dado sinal de vida.
- “Ah, não senti vontade de ligar e pronto”
- “Como assim não sentiu vontade? Você tá louco? Pirou?”
- “Acho que sim,” disse Luís, desligando o telefone na cara da doida.
Era possível sentir a respiração da menina, que bufava do outro lado da linha. Com raiva, ela ligou novamente. Luís Hernandes demorou um pouco a atender.
- “Como você desliga o telefone na minha cara? Você nunca foi assim, não estou te reconhecendo. É você mesmo quem está falando?”
Luís Hernandes nada fez, a não ser afastar o aparelho celular do ouvido, diante do “pití” da namorada. Ainda tentou ser generoso, afinal, ela não tinha culpa nenhuma de tudo aquilo.
- “Ok, a gente pode conversar na faculdade”
- “Tá, então eu vou pra lá”
- “Agora vou apresentar um trabalho. Eu te ligo”
Desligaram o telefone. Não conformada, a menina ligou novamente. Luís atendeu irritado.
- “Oi”
- “Você vai apresentar o trabalho agora? Porque, se for o caso, chego aí em cinco minutos”
(mulheres são sempre ansiosas demais)
- “Deixa de ansiedade, garota. Assim que eu terminar a apresentação, eu ligo, pronto!”
- “Tchau, beijo”
Ele fechou a tampa do flip balançando a cabeça. Queria ter paciência, coisa que sempre teve. Deitou a cabeça na janela, deu play novamente no MP3 e esperou chegar ao destino.
Quando desceu à faculdade, sentiu uma canseira. Foi até à porta do elevador, mas desistiu de subir e saiu andando sem destino. Resolveu nem esperar mais a namorada, que virou ex sem nenhum motivo aparente. Luís chegou num bar meia boca e pediu uma cerveja. Nunca tinha ingerido nenhuma bebida alcoólica, tanto que ensaiou uma cara horrorosa quando sentiu o gosto amargo. Bebeu uma, duas, três…cinco. Ficou completamente embriagado. Cambaleante, caminhou até o banheiro, onde passou meia hora. Acabou cochilando. Os funcionários do boteco tiveram que arrombar a porta para tirá-lo de lá. Um vexame para o menino com fama de inteligente, que, no momento, estava despido. As pessoas que se dispuseram a expulsá-lo resistiram ao fato de ter que vesti-lo, mas foram obrigados pelo patrão.
- “Coloquem a roupa desse moleque agora! Depois, tirem-no daqui!”
- “Ok, senhor (em coro), responderam os funcionários”
Luís Hernandes estava na calçada, todo entregue. Até que resolveu se levantar, esticou os braços e fez aquela velha pergunta:
- “Onde estou?”
- “Você está no inferno”, respondeu o diabinho que acabara de encostar em seu ombro esquerdo.
- “Quem é você? Você existe mesmo? Então, cadê o lado do bem?”
- “Eu não existo e não tem lado do bem. Você só tem feito merda, cara!”
O menino começou a achar que poderia ter passado dos limites. Deve ter provado outras coisas a mais além da cerveja. Ele não queria e nem podia voltar para casa naquele estado. Então, decidiu continuar sua peregrinação. Foi até o centro da cidade e entrou numa boate. O lugar era um pouco escuro, com algumas luzes negras clareando. Um som de Britney Spears vinha de longe. Cada vez que Luís se aproximava, a música se tornava mais alta. No salão, muitas pessoas dançavam loucamente. Homens, mulheres, homens em mulheres, mulheres em homens. Um clima bem fraterno e instigante. O som das eletrônicas ia entrando no corpo de Luís. Quando ele mesmo esperou, estava se mexendo, jogando os braços molengos para frente e a cabeça para um lado e para o outro. E essa performance foi se tornando mais intensa, mais dançante e mais empolgante.
As pessoas abriram uma enorme roda para deixar um ser esquisito se mexer. Ele fechava os olhos e sentia Spice Girls dentro de si, Madona e Lady Gaga. O remelexo jegue não importava. Luís estava feliz, libertado. Só isso bastava. A coisa era tão prazerosa que todo mundo da boate passou a dançar junto com ele.
Em um instante, Luís saiu da discoteca e foi até o banheiro. Ao olhar para o lado, com a vista um pouco embaçada, viu duas mulheres se beijando. Ele franziu a testa, na tentativa de enxergar alguma coisa. O cabelo, a pele clara, o sinal na metade do braço…
- “Olha, não é nada disso!” - falou uma delas.
- Moça, sente-se feliz assim? – indagou Luís.
- “Eu ia te dizer isso hoje, mas você não apareceu na faculdade.” – continuou a garota
Era a ex-namorada, que sempre pagou de puritana.
- “Olha, querida, eu não sei quem você é. Passa amanhã. Beijo, não me liga”, proclamou Luís, saindo logo em seguida.
A menina ficou com a cara mais azeda do mundo, sem entender a reação do ex-namorado. Luís nem tinha ligado mesmo. Saiu da boate e vagou pela calçada procurando o que fazer.
Ele, então, sentou-se no meio-fio. O diabinho apareceu de novo. E desta vez, ele estava maior. Não era mais aquela coisa vermelha do tamanho de um passarinho que, anteriormente, havia pousado em seu ombro. Estava do tamanho de uma criança de dois anos, agora. Ele vinha andando na direção de Luís, cantarolando e balançando sua cauda pontiaguda com a mão esquerda, como se fosse um passo de balé. Nosso herói, Luís Hernandes, tentou se levantar, mas a pequena figura vermelha saltou em seu colo.
- Quem é você, porra?
- Já lhe disse. Eu sou o demônio e vim realizar uma obra demoníaca – responde o diabinho.
Seu hálito era enxofre puro e fez Luís enjoar.
Naquele dia, Luís Hernandes saiu de casa com gosto de gás. Decidido a tornar sua vida diferente. Mudar era a palavra-chave. As primeiras alterações começaram nas peças de roupas. Nada que ele passou a usar era costumeiro. Vestiu-se com uma camisa mais arrojada, um tênis All Star e uma bermuda bem transada (imaginem como quiser). Aquilo não era a cara dele, mas o sentimento de transformação falava mais alto. Bem mais alto.
A pasta que costumava carregar foi trocada por uma bolsa Adidas, dessas à tiracolo. O cabelo ganhou um topete simpático e gel para modelar os fios loiros das luzes que fez. Perfume no cangote e nos pulsos. Pronto. Pelo menos nas vestimentas, Luís aparentava ser outra pessoa.
Ao chegar na parada, a menina que sempre virara a cara para ele respirou fundo, sentindo o cheiro delicioso do perfume do novo rapaz. A jovem tinha os cabelos compridos, corpo de dar inveja a qualquer mulher e olhos cor de mel. De fato, Luís era caidinho por ela, mas dar bola a essa altura do campeonato mudaria os planos. Saiu de fininho e foi para o outro lado. A menina, claro, achou logo que ele fosse veado.
Enfim, chegou o ônibus de Luís Hernandes. Ele entrou pisando firme, emitindo barulho na lataria do veículo. O motorista (de sempre) chega se assustou com a ousadia do garoto.
- “Bom dia”, disse o motorista
- “Ahê, motô”, respondeu Luís, sentando na última cadeira.
O jeitão esparramado era meio forçado. A encenação terminou com a famosa coçadinha no saco. O cobrador virou a cara, com ar de reprovação. Três minutos depois o celular tocou. Era a sua namorada perguntando porque ele ainda não havia dado sinal de vida.
- “Ah, não senti vontade de ligar e pronto”
- “Como assim não sentiu vontade? Você tá louco? Pirou?”
- “Acho que sim,” disse Luís, desligando o telefone na cara da doida.
Era possível sentir a respiração da menina, que bufava do outro lado da linha. Com raiva, ela ligou novamente. Luís Hernandes demorou um pouco a atender.
- “Como você desliga o telefone na minha cara? Você nunca foi assim, não estou te reconhecendo. É você mesmo quem está falando?”
Luís Hernandes nada fez, a não ser afastar o aparelho celular do ouvido, diante do “pití” da namorada. Ainda tentou ser generoso, afinal, ela não tinha culpa nenhuma de tudo aquilo.
- “Ok, a gente pode conversar na faculdade”
- “Tá, então eu vou pra lá”
- “Agora vou apresentar um trabalho. Eu te ligo”
Desligaram o telefone. Não conformada, a menina ligou novamente. Luís atendeu irritado.
- “Oi”
- “Você vai apresentar o trabalho agora? Porque, se for o caso, chego aí em cinco minutos”
(mulheres são sempre ansiosas demais)
- “Deixa de ansiedade, garota. Assim que eu terminar a apresentação, eu ligo, pronto!”
- “Tchau, beijo”
Ele fechou a tampa do flip balançando a cabeça. Queria ter paciência, coisa que sempre teve. Deitou a cabeça na janela, deu play novamente no MP3 e esperou chegar ao destino.
Quando desceu à faculdade, sentiu uma canseira. Foi até à porta do elevador, mas desistiu de subir e saiu andando sem destino. Resolveu nem esperar mais a namorada, que virou ex sem nenhum motivo aparente. Luís chegou num bar meia boca e pediu uma cerveja. Nunca tinha ingerido nenhuma bebida alcoólica, tanto que ensaiou uma cara horrorosa quando sentiu o gosto amargo. Bebeu uma, duas, três…cinco. Ficou completamente embriagado. Cambaleante, caminhou até o banheiro, onde passou meia hora. Acabou cochilando. Os funcionários do boteco tiveram que arrombar a porta para tirá-lo de lá. Um vexame para o menino com fama de inteligente, que, no momento, estava despido. As pessoas que se dispuseram a expulsá-lo resistiram ao fato de ter que vesti-lo, mas foram obrigados pelo patrão.
- “Coloquem a roupa desse moleque agora! Depois, tirem-no daqui!”
- “Ok, senhor (em coro), responderam os funcionários”
Luís Hernandes estava na calçada, todo entregue. Até que resolveu se levantar, esticou os braços e fez aquela velha pergunta:
- “Onde estou?”
- “Você está no inferno”, respondeu o diabinho que acabara de encostar em seu ombro esquerdo.
- “Quem é você? Você existe mesmo? Então, cadê o lado do bem?”
- “Eu não existo e não tem lado do bem. Você só tem feito merda, cara!”
O menino começou a achar que poderia ter passado dos limites. Deve ter provado outras coisas a mais além da cerveja. Ele não queria e nem podia voltar para casa naquele estado. Então, decidiu continuar sua peregrinação. Foi até o centro da cidade e entrou numa boate. O lugar era um pouco escuro, com algumas luzes negras clareando. Um som de Britney Spears vinha de longe. Cada vez que Luís se aproximava, a música se tornava mais alta. No salão, muitas pessoas dançavam loucamente. Homens, mulheres, homens em mulheres, mulheres em homens. Um clima bem fraterno e instigante. O som das eletrônicas ia entrando no corpo de Luís. Quando ele mesmo esperou, estava se mexendo, jogando os braços molengos para frente e a cabeça para um lado e para o outro. E essa performance foi se tornando mais intensa, mais dançante e mais empolgante.
As pessoas abriram uma enorme roda para deixar um ser esquisito se mexer. Ele fechava os olhos e sentia Spice Girls dentro de si, Madona e Lady Gaga. O remelexo jegue não importava. Luís estava feliz, libertado. Só isso bastava. A coisa era tão prazerosa que todo mundo da boate passou a dançar junto com ele.
Em um instante, Luís saiu da discoteca e foi até o banheiro. Ao olhar para o lado, com a vista um pouco embaçada, viu duas mulheres se beijando. Ele franziu a testa, na tentativa de enxergar alguma coisa. O cabelo, a pele clara, o sinal na metade do braço…
- “Olha, não é nada disso!” - falou uma delas.
- Moça, sente-se feliz assim? – indagou Luís.
- “Eu ia te dizer isso hoje, mas você não apareceu na faculdade.” – continuou a garota
Era a ex-namorada, que sempre pagou de puritana.
- “Olha, querida, eu não sei quem você é. Passa amanhã. Beijo, não me liga”, proclamou Luís, saindo logo em seguida.
A menina ficou com a cara mais azeda do mundo, sem entender a reação do ex-namorado. Luís nem tinha ligado mesmo. Saiu da boate e vagou pela calçada procurando o que fazer.
Ele, então, sentou-se no meio-fio. O diabinho apareceu de novo. E desta vez, ele estava maior. Não era mais aquela coisa vermelha do tamanho de um passarinho que, anteriormente, havia pousado em seu ombro. Estava do tamanho de uma criança de dois anos, agora. Ele vinha andando na direção de Luís, cantarolando e balançando sua cauda pontiaguda com a mão esquerda, como se fosse um passo de balé. Nosso herói, Luís Hernandes, tentou se levantar, mas a pequena figura vermelha saltou em seu colo.
- Quem é você, porra?
- Já lhe disse. Eu sou o demônio e vim realizar uma obra demoníaca – responde o diabinho.
Seu hálito era enxofre puro e fez Luís enjoar.
O dia em que Luís Hernandes resolveu mudar - Parte II
O suco azedo invadiu-lhe o corpo, percorrendo veias, entupindo vasos, fundindo-se ao seu sangue. Neste momento, todos os órgãos pararam. O diabinho, ao lado, sorria feliz. Gargalhadas estridentes e diabólicas. Luís, então, vomitou. Botou para fora todo o podre que guardava dentro de si. Até a própria alma foi embora com o jato mau cheiroso. O pequeno diabo encostou-se ao seu rosto.
- “É, meu caro...você mudou demais. Não era pra ser assim. Nem beber você sabia, caralho.”
- “Ah, não enche. Me ajuda aqui.”, disse Luís Hernandes tentando tirar a cara do vômito.
- “Vai, levanta”, falou o diabo, puxando-o pelo braço.
- “Eu não consigo. É como se eu estivesse sem nada dentro de mim.”
- “Assim fica difícil, porra. Levanta, diabo!”
- “Hey, o diabo aqui é você. Não confunda as coisas.”
A cada segundo, Luís Hernandes ia ficando mais amolecido. Sua alma começou a largar do corpo, como se fosse uma regressão. Até o diabo teve medo. Enfim, saiu Luizinho da boca de Luís. Ele era do tamanho do diabinho, só um pouco mais magro. E, claro, a coisa vermelha estava feliz com o novo companheiro.
- “Você tá é bonitão, heim?”, comentou o diabo.
- “Que porra é essa que eu sou? Sou o anjo, é isso?”
O diabo deu uma risada incontrolável.
- “Anjo é a última coisa que você poderia ser.”
- “Num vem não que tu és muito pior do que eu.”
- “Eu sei disso, por isso que eu sou diabo!”, completou, elevando os braços para assustar Luís.
- “Sai de perto de mim, porra.”
- “Veja o lado bom. Agora, podemos ser brothers, cara!”
- “Que mané brother, tá louco? Estou assim, mas ainda não pirei completamente.”
- “Embora, vamos arrumar o que fazer!”, gritou o diabo, que já estava quase no fim da rua.
Luizinho Hernandes andou a passos lentos, querendo resistir àquela loucura. Perguntava-se a todo instante o que estava fazendo ali, com aquele tamanho, aquela transparência e com aquela criatura de rabo vermelho. - “E se for um sonho, este é o momento em que minha alma vaga pela madrugada?”, indagou-se.
Já eram duas horas da madrugada. A rua estava deserta. Luizinho Hernandes e seu diabo amigo andavam sem rumo.
- “É, meu caro...você mudou demais. Não era pra ser assim. Nem beber você sabia, caralho.”
- “Ah, não enche. Me ajuda aqui.”, disse Luís Hernandes tentando tirar a cara do vômito.
- “Vai, levanta”, falou o diabo, puxando-o pelo braço.
- “Eu não consigo. É como se eu estivesse sem nada dentro de mim.”
- “Assim fica difícil, porra. Levanta, diabo!”
- “Hey, o diabo aqui é você. Não confunda as coisas.”
A cada segundo, Luís Hernandes ia ficando mais amolecido. Sua alma começou a largar do corpo, como se fosse uma regressão. Até o diabo teve medo. Enfim, saiu Luizinho da boca de Luís. Ele era do tamanho do diabinho, só um pouco mais magro. E, claro, a coisa vermelha estava feliz com o novo companheiro.
- “Você tá é bonitão, heim?”, comentou o diabo.
- “Que porra é essa que eu sou? Sou o anjo, é isso?”
O diabo deu uma risada incontrolável.
- “Anjo é a última coisa que você poderia ser.”
- “Num vem não que tu és muito pior do que eu.”
- “Eu sei disso, por isso que eu sou diabo!”, completou, elevando os braços para assustar Luís.
- “Sai de perto de mim, porra.”
- “Veja o lado bom. Agora, podemos ser brothers, cara!”
- “Que mané brother, tá louco? Estou assim, mas ainda não pirei completamente.”
- “Embora, vamos arrumar o que fazer!”, gritou o diabo, que já estava quase no fim da rua.
Luizinho Hernandes andou a passos lentos, querendo resistir àquela loucura. Perguntava-se a todo instante o que estava fazendo ali, com aquele tamanho, aquela transparência e com aquela criatura de rabo vermelho. - “E se for um sonho, este é o momento em que minha alma vaga pela madrugada?”, indagou-se.
Já eram duas horas da madrugada. A rua estava deserta. Luizinho Hernandes e seu diabo amigo andavam sem rumo.
O dia em que Luís Hernandes resolveu mudar - Parte III (final)
Os dois pararam em frente a um bar. Um lugar sujo e feio, com cadeiras e mesas velhas. Um homem gordo cochilava no balcão.
- "Vamos", disse o diabo.
Entraram e sentaram em uma mesa. O homem gordo acordou com o som das cadeiras sendo movidas e veio até eles. Com um pano molhado, enxugou a mesa e perguntou o que iam querer.
- "Cerveja", respondeu o diabo.
- "Não quero beber", gritou Luís Hernandes.
- "Mas vai. Fique aí que eu vou ao banheiro."
O gordo trouxe a cerveja e serviu dois copos. Luís bebeu, mesmo sem vontade. O diabo voltou e sentou-se ao seu lado.
- "Você cresceu mais ou é impressão minha?", perguntou Luís.
A figura vermelha, agora, tinha pouco mais de um metro de altura.
- "Sim. Não é legal?"
- "Não sei. Pra mim não tem importância."
- "Mas devia ter. Eu, por exemplo, me importo com o fato de você estar encolhendo."
- "Encolhendo?"
Assustado, Luís Hernandes levantou-se. Sua bermuda caiu até o chão e ele por pouco não tropeçou enroscado com ela em suas pernas.
- "Bonita cueca", disse o demônio, após tomar um gole de cerveja.
Luís Hernandes sentou-se de novo, constrangido. O gordo, no balcão, olhava para ele meio cismado com seu repentino strip-tease de Luís. Então, notou que sua camisa também estava folgada e seus pés balançavam dentro dos tênis All Star.
- "Quero ir pra casa, falou. Seu tom de voz era como o de um pedido. Como um garoto se sentindo desconfortável em um lugar estranho."
- "Não. Você não quer. Não tem nada lá."
Luís Hernandes abaixou a cabeça e fez um beiço de quem ia chorar. O diabo lhe deu uma tapa no rosto. Luís o encarou, constrangido e, agora, curioso.
- "Desde quando você usa gel, no cabelo?", perguntou Luís.
O diabo tinha agora um topete pintado de loiro. E estava maior, muito maior. Luís achou que estava bêbado ao extremo, mas depois percebeu. Realmente o diabo tinha crescido mais. Só que Luís havia encolhido significativamente. Ele estava agora envolto em suas roupas e sua camisa parecia mais um lençol.
- "Eu encolhi", disse ele, gaguejando. – "Você cresceu."
- "Venha", falou o diabo, lhe estendendo a mão.
Luís Hernandes subiu em sua mão e o diabo o levou até perto do seu rosto.
- "Chegou a hora de você fazer a coisa certa.", sentenciou o diabo, e em seguida arreganhou a boca.
Luís Hernandes, então, saltou para dentro da escuridão.
O diabo levantou-se, vestiu as roupas de Luís, pagou a cerveja e saiu do bar. Do outro lado da rua, havia alguns carros com os sons ligados e umas pessoas bebendo no local. Em uma das rodas de amigos, estava a menina que Luís Hernandes sempre via na parada de ônibus. Ela encarou abriu um farto sorriso quando viu o diabo e caminhou até ele.
- "Oi. Eu não te conheço?", perguntou ela.
- "Prazer em conhecê-la. Espero que adivinhe meu nome", respondeu ele, com um sorriso no rosto.
p.s: Conto baseado numa criatura grotesca que se sentou ao meu lado no ônibus.
Créditos:
Andreane Carvalho
Colaboração: Geraldo de Fraga (jornalista e escritor do livro História que nos Sangram – a venda nas melhores livrarias!).
- "Vamos", disse o diabo.
Entraram e sentaram em uma mesa. O homem gordo acordou com o som das cadeiras sendo movidas e veio até eles. Com um pano molhado, enxugou a mesa e perguntou o que iam querer.
- "Cerveja", respondeu o diabo.
- "Não quero beber", gritou Luís Hernandes.
- "Mas vai. Fique aí que eu vou ao banheiro."
O gordo trouxe a cerveja e serviu dois copos. Luís bebeu, mesmo sem vontade. O diabo voltou e sentou-se ao seu lado.
- "Você cresceu mais ou é impressão minha?", perguntou Luís.
A figura vermelha, agora, tinha pouco mais de um metro de altura.
- "Sim. Não é legal?"
- "Não sei. Pra mim não tem importância."
- "Mas devia ter. Eu, por exemplo, me importo com o fato de você estar encolhendo."
- "Encolhendo?"
Assustado, Luís Hernandes levantou-se. Sua bermuda caiu até o chão e ele por pouco não tropeçou enroscado com ela em suas pernas.
- "Bonita cueca", disse o demônio, após tomar um gole de cerveja.
Luís Hernandes sentou-se de novo, constrangido. O gordo, no balcão, olhava para ele meio cismado com seu repentino strip-tease de Luís. Então, notou que sua camisa também estava folgada e seus pés balançavam dentro dos tênis All Star.
- "Quero ir pra casa, falou. Seu tom de voz era como o de um pedido. Como um garoto se sentindo desconfortável em um lugar estranho."
- "Não. Você não quer. Não tem nada lá."
Luís Hernandes abaixou a cabeça e fez um beiço de quem ia chorar. O diabo lhe deu uma tapa no rosto. Luís o encarou, constrangido e, agora, curioso.
- "Desde quando você usa gel, no cabelo?", perguntou Luís.
O diabo tinha agora um topete pintado de loiro. E estava maior, muito maior. Luís achou que estava bêbado ao extremo, mas depois percebeu. Realmente o diabo tinha crescido mais. Só que Luís havia encolhido significativamente. Ele estava agora envolto em suas roupas e sua camisa parecia mais um lençol.
- "Eu encolhi", disse ele, gaguejando. – "Você cresceu."
- "Venha", falou o diabo, lhe estendendo a mão.
Luís Hernandes subiu em sua mão e o diabo o levou até perto do seu rosto.
- "Chegou a hora de você fazer a coisa certa.", sentenciou o diabo, e em seguida arreganhou a boca.
Luís Hernandes, então, saltou para dentro da escuridão.
O diabo levantou-se, vestiu as roupas de Luís, pagou a cerveja e saiu do bar. Do outro lado da rua, havia alguns carros com os sons ligados e umas pessoas bebendo no local. Em uma das rodas de amigos, estava a menina que Luís Hernandes sempre via na parada de ônibus. Ela encarou abriu um farto sorriso quando viu o diabo e caminhou até ele.
- "Oi. Eu não te conheço?", perguntou ela.
- "Prazer em conhecê-la. Espero que adivinhe meu nome", respondeu ele, com um sorriso no rosto.
p.s: Conto baseado numa criatura grotesca que se sentou ao meu lado no ônibus.
Créditos:
Andreane Carvalho
Colaboração: Geraldo de Fraga (jornalista e escritor do livro História que nos Sangram – a venda nas melhores livrarias!).
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Instante
Para brincar com o medo é preciso ser conhecedor
Brincar de vencer as amarguras e a dor
Nem tudo o que fala é permanente
Traiçoeiro, resolve logo cortar o mal pela raiz
Diz-me como faz para ser feliz?
A possibilidade apossa a posse
Mas, a brincadeira acabou
Pode começar a cessar
E não cesse sem antes tentar
Ri para descontrair
Ir para desiludir
Vir para não haver saudade
Deixa isso para daqui a dez anos
Às 21h01, passando pensamentos supérfluos para o papel.
Brincar de vencer as amarguras e a dor
Nem tudo o que fala é permanente
Traiçoeiro, resolve logo cortar o mal pela raiz
Diz-me como faz para ser feliz?
A possibilidade apossa a posse
Mas, a brincadeira acabou
Pode começar a cessar
E não cesse sem antes tentar
Ri para descontrair
Ir para desiludir
Vir para não haver saudade
Deixa isso para daqui a dez anos
Às 21h01, passando pensamentos supérfluos para o papel.
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