terça-feira, 20 de abril de 2010

Toda nudez será castigada


- Como você consegue escrever tão bem? – perguntou ele, olhando curiosamente para o texto
- Eu não sei escrever, apenas sei viver – disse ela
- Acho que a vida não tem me proporcionado boas experiências então, mas eu vou insistir – comentou o rapaz, mesmo com raiva do que tinha escutado.
- Para cada situação, eu crio histórias. Histórias enormes que chegam a não caber em minha memória. Levo sempre comigo uma caneta e um papel. Anoto, anoto tudo o que vejo, sinto e percebo.
- Eu também faço isso. Só que ultimamente as palavras fogem de mim, como se eu fosse um monstro terrível, sabe? Eu tento acalmá-las. Reúno as melhores frases e peço que elas dêem as mãos. Quando eu penso que está tudo resolvido e me distraio um segundo, elas fogem de mim novamente.
- Não as force. Elas fogem, pois não têm certeza do que você pensa sobre elas.

Ele parecia ter entendido muito bem o recado. Voltou para casa com um olhar mais aguçado e minucioso. Qualquer diálogo era motivo de atenção. Observou o trânsito pela janela do coletivo. Nada. Chegou em casa, esquentou a sopa de feijão que tinha feito na noite anterior, leu algumas revistas pendentes e foi tomar banho. As idéias cessavam. De repente, ele parou de pensar o que havia de pensar. Nada mais interessava, a não ser a água que escorria em seu corpo. Esse era um momento diário de tranquilidade. Foi aí que uma idéia surgiu. Em poucos segundos, o texto já estava ali, pronto na sua cabeça. Saiu nu do box e correu pela casa atrás de um pedaço de papel e uma caneta. Acabou tropeçando num vaso de flores. Fim da linha. Infelizmente, não encontrou nenhum dos dois. E as palavras que restaram não lhe permitiram construir sequer uma frase.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A pergunta errada (no lugar errado)


Geraldo, esse mesmo que de vez em quando deixa comentários neste blog, já não aguenta mais tanta enrolação com sua vida amorosa. Sempre alguma coisa dá errado.
Na última sexta-feira, por insistência dos amigos, ele decidiu sair para aloprar.
Aloprar, por sua vez, significa chutar o balde, beber até cair, dançar feito um doido na pista e não ligar para quem está olhando. Pois é, como muita gente, ele saiu de casa com esse objetivo, rumo a uma festinha descolada, que acontece quinzenalmente no bairro do Recife. Lá, por motivos não óbvios, ele conheceu uma garota, com a qual puxou papo. Apesar do som estridente, os gritinhos no ouvido permitiram que os dois trocassem algumas palavras.

Geraldo: Sim, mas como é teu nome?
Moça descolada: Essa não é a pergunta certa na Sem Loção. A pergunta certa é "Você gosta de homem ou de mulher?"

Geraldo faz cara de quem não gostou, mas continua o flerte.

Geraldo: Ok. Você gosta de homem ou de mulher?
Moça descolada: De mulher.

Geraldo sai, compra uma cerveja e vê a menina beijando um cara. Ele volta para tirar satisfação.

Geraldo: Pensei que tinha me dito que era lésbica
Moça descolada: E sou.
Geraldo: E esse cara que você beijou?
Moça descolada: É veado. Amigo meu.

p.s 1: Geraldo não vive nesse mundo. As coisas mudaram, meu amigo.

p.s 2: Façam suas apostas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Da série: sinceridades que eu encontro por aí

Foto: João Miguel

Essa parede colorida é do espaço Oficina Ginga, localizado no município do Cabo de Santo Agostinho (a 41 km do Recife). Um trabalho social realizado com meninos e meninas da comunidade de Pontezinha, que inclui, entre outras coisas, aulas gratuitas de instrumentos musicais, maculelê e capoeira.
O texto retrata muito bem a angústia de uma criança diante de um mundo que não avança. Achei de uma sensibilidade incrível e resolvi postar a foto aqui no blog.

p.s: Não sei de quem é a autoria.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Lotadão

O ônibus era o inferno materializado. Pessoas se espremiam e imploravam por um pouco de ar. Estava num nível que não cabia mais ninguém. O motorista, não contente com o sufoco, abre a porta para uma penca de adolescentes. Eis que se estabelece um diálogo:

- Porra, tá foda – disse um deles, levantando a cabeça.
- Da próxima vez a gente não vai mais pro bar. Prefiro esperar minha mãe, véi.
- Ai que calor. Cala a boca, minha gente – gritou uma menina.
- Vocês também fazem um esparro, viu? Pensem que não estamos indo para a câmera de ar de Hitler. Estamos a caminho da nossa casa para comer e dormir.

Ah, tudo bem. Estamos todos mais aliviados.


p.s 1: Câmera é o #$%@#.
p.s 2: Mesmo que estivéssemos indo para a CÂMARA de ar, o sentimento de alívio iria permanecer. Afinal, a câmara da Alemanha nazista era a GÁS.
p.s 3: Eu queria saber que merda foi essa que esse menino bebeu (ou comeu).
p.s 4: Às 18h43 de uma quinta-feira engarrafada.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sentimento de urgência

Clarice me ensinou uma vez que a saudade é como a fome
Que só passa quando se come a presença
Por enquanto, estou em jejum
Sem nem de longe ver o prato

p.s: Essa Clarice é a Lispector. Minha amiga de momentos intimistas.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Cadê a criatividade que estava aqui?
O tempo comeu
O vento levou.......................
A caneta falhou
E eu fiz o favor de esquecer

Fica para a próxima

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

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Que triste ver o carnaval se esvair
Pernambucano, de fato, não deixa o frevo sumir
Ele pula, brinca, balança, sem nem aguentar mais
Pensa que a festa não acaba jamais
Mas já é tarde e a cidade precisa se mexer
Deixe, menino, Momo adormecer
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*Um lembrete a todos aqueles que, assim como eu, estão de volta à realidade.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


Lá vem ela
Na passarela
Toda magrela
Com sua fantasia
De flor amarga

Lá vem ela
Que coisa bela
Dando cambalhotas
Para ver se anima
O seu carnaval

*Bom carnaval!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Divagação II

Olha a cama do seu pai
O que é que tem?
Tá estranha
Estranha? Como assim? Deixa-me ver
Por que ele fez isso?
Debruçou?
Sim, para quê?
Ah, sei lá. Vai ver ele resolveu virar a vida de cabeça para baixo e fez da cama sua testemunha

sábado, 23 de janeiro de 2010

Um olhar sobre a Rocinha


Isso mesmo, a Rocinha.
Assim como você (nem tanto), eu achava que subir em morros cariocas era coisa de novela. Para isso, precisava-se recrutar seguranças e pedir permissão ao chefe do tráfico.
Evidentemente, é assim que a “banda toca” em algumas favelas do Rio de Janeiro, mas existem outras que são possíveis de se visitar.

Ao saber disso, decidi fazer um tour pela Rocinha, umas das maiores e mais bonitas favelas do Brasil, com a ajuda de uma companhia de turismo. Depois que entrei em contato, fiquei bastante ansiosa. Tenho uma ligação muito forte com favelas e, principalmente, com a cultura peculiar de cada uma delas.

Às 14h, eu estava de saída. Antes de chegarmos ao destino, fomos buscar outras pessoas. Ao todo, foram quatro poloneses e dois espanhóis. Eu era a única brasileira...e pernambucana, ainda por cima.

O calor estava doendo no couro. Os turistas mais prevenidos levaram um chapéu. A espanhola, toda vestida de vermelho almodovariano, começou a chiar. Ficou nos primeiros minutos de cara fechada, até o marido dela pedir para cobrir o teto do Jeep com a lona. Eu, lógico, fiquei puta, mas entendi a necessidade estrangeira alheia.

Sim! Esqueci de comentar sobre o nosso guia. Era um italiano alto, de olhos azuis e cabelos totalmente brancos. O sotaque ainda o denunciava, mas seu português era impecável. Mora no Rio de Janeiro há trinta anos e tem nome inglês, John.

No caminho, ele explicou a origem da praia de Copacabana. Reza a lenda que Nossa Senhora tinha aparecido para um pescador naquela mar. Para homenageá-la, ele esculpiu a imagem da santa, que ficou conhecida como Nossa Senhora de Copacabana. Por sua vez, Copacabana é o nome de uma cidade boliviana, que se situa às margens do lago Titicaca. Muitos navios espanhóis, que saiam do Peru e da Bolívia, faziam comercio naquela área.

Outros bairros famosos também foram apresentados pelo guia, assim como a lagoa Rodrigo de Freitas. Cheguei à conclusão que todos os bairros da cidade maravilhosa são dignos de visitação e deslumbre. São ruas bastante arborizadas, sinalizadas e de riquezas históricas que dão vontade de passar o dia inteiro escutando.

Enfim, chegamos ao bairro da Gávea e começamos a subir uma enorme ladeira. De um lado e de outro, imensas mansões corriam diante dos nossos olhos. É impossível não ficar fascinado com a beleza das casas. Mas, à medida que íamos nos aproximando, a pobreza aparecia ao longe...
As casas vão deixando de ter muros altos e arquitetura para serem pequenas moradias, amontoadas, feitas de tijolos. Algumas possuem o privilégio de terem reboco e pintura, outras nem isso.

Ao virarmos à direita, o guia anunciou: “chegamos à maior favela do Brasil”. Olhei para trás... as grandes mansões tinham ficado pequeninas. O contraste deixou de existir. Do alto, quem domina é a comunidade da Rocinha, com seus, aproximadamente, 100 mil habitantes.

A minha vista vagou, tentando fotografar cada detalhe. Crianças com o cabelo pintado de amarelo corriam na rua sem nome. Pessoas subiam e desciam, sem parar, na garupa das motos. Olhei para cima e vi uma senhora estendendo lençóis. Ela sorriu quando notou a minha presença curiosa. Eu devolvi a gentileza.


Enquanto meu sorriso ainda se desfazia, meus ouvidos captavam a informação do guia. Então, por que Rocinha?
Por volta de 1930, naquele lugar existia uma fazenda chamada Quebra-Cangalha. Essa terra começou a ser repartida em pequenas chácaras. Os primeiros moradores que se fixaram ali, para sobreviverem, cultivavam frutas e verduras. Todos os produtos eram comercializados na feira da Praça Santos Dumont. Quando os fregueses perguntavam de onde vinham as frutas e legumes vendidos na praça, todos respondiam “vem da rocinha”.

Após o pequeno histórico, descemos do carro para conhecer trabalhos artísticos feitos por moradores. Um deles, com uma ginga malandra, tipicamente carioca, veio falar inglês comigo. “Hi, my friend. This picture is fifty reais”. Eu disse: “Sou brasileira”. Ele continuou: “Ah, é? Pra você eu faço R$ 40, minha patroa”. Prontamente, respondi “Sou pernambucana”. O vendedor, em desistência, falou “Então, faço R$ 30 pá senhora levar um trabalho meu”. Rimos juntos. O nome dele é Roberto Dantas. O quadro que comprei é uma pintura da favela da Rocinha.

Adentramos ainda mais na favela. É impossível esquecer os problemas sociais e perceber apenas a beleza. A cada novo passo, o retrato da miséria era nítido. O guia comentou que os governos federal e estadual têm realizado trabalhos concretos para ajudar num crescimento civilizado. Uma das obras de importância é o hospital da Rocinha, concebido pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Hoje em dia, todas as moradias possuem água encanada, reservatório e energia elétrica. Deparamos-nos com um grande ninho de fios de um poste. A gambiarra chegava quase no chão. O turista polonês parecia ter certeza de como as coisas funcionam...para os íntimos, o famoso “gato”. “Some people pay and some people not pay.” No entanto, como nos informou o leitor Carlos Costa, morador da Rocinha e diretor geral do jornal Rocinha Notícias, os amontoados de fios não são de "gatos", e sim, das companhias telefônicas que os agrupam excessivamente aproveitando as estruturas dos postes de energia elétrica para sustentação. "São cabeamentos regulares de clientes oficiais da companhias telefônicas. Os gatos são feitos de formas sutis junto aos medidores domiciliares, até porque a Companhia elétrica faz vistorias diárias de forma ostensiva", completou.

A próxima parada foi numa laje. O morador, de tão esperto que é, tratou logo de providenciar um cantinho para que os visitantes tivessem um panorama geral da Rocinha. Boa idéia. A vista é mesmo de arrepiar. Espantei-me com tamanha grandiosidade. Acho que um ano não seria suficiente para percorrer toda a favela.

Depois, andamos durante uma hora e meia, por entre ruas e vielas. As pessoas olhavam de lado, um pouco desconfiadas, mas, no fundo, sei que sentem orgulho de morar em um lugar tão especial. E que, de tão especial, vem gente lá de longe para apreciar.


A Rocinha leva a denominação de uma favela, mas é, sem dúvida, uma cidade dentro do Rio de Janeiro. Quem já viu favela ter Bob´s, Mcdonald´s, Itaú, Caixa Econômica e Brasdesco?

É...para você que ainda não conhece, acho bom derrubar as máscaras do preconceito e olhar de perto o modo de vida de uma cultura diversificada.
Esqueça as incursões policiais, o medo, a pobreza...desenvolva a sensibilidade de perceber o que é realmente belo. Pão de Açúcar e Cristo redentor já não estão com nada. São envelhecedores.


p.s1: No mesmo dia, conhecemos a sede da escola de samba Acadêmicos da Rocinha. Ainda segundo o leitor Carlos Costa, ela está no grupo A (de acesso) e basta ganhar o carnaval em seu grupo para ingressar no grupo Especial (a elite do carnaval carioca). Vamos torcer!

p.s2: Eis uma música do Caju e Castanha em homenagem à favela da Rocinha.

Favela da Rocinha

Quem vem ao Rio
Não se esqueça de passar
Na favela da Rocinha
Que lá é um bom lugar

É uma cidade
Dentro de uma favela
Michael Jackson
Teve nela e muita gente foi olhar

Lá na rocinha
Tem colégio e hospital
Para o povo não passar mal
E criança estudar

Tem uma feira
Que rola o dia inteiro
Tá cheia de nordestino
Ainda vem do estrangeiro

Rocinha hoje
É um acervo cultural
Tem rádio e tem jornal
E tem motel pra se amar

Quatorze creches
Um campo de futebol
Acadêmicos da Rocinha
Representando o lugar

Lá na Rocinha
Se você quiser saber
Digo agora pra você
As belezas que tem lá
Tem celular
Também tem computador
TV a cabo chegou
Para o povão desfrutar

É uma favela
Dentro do Rio de Janeiro
Com fama no mundo inteiro
E virou bairro popular

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

À sombra do sol


Árvore grande no meio do nada
Nem fruto eu sei se ela dá
A única coisa que sei é da menina da pele castigada pelo sol
Que descansa onde os galhos projetam grandes sombras
Alí, ela cochila todas as tardes, após plantar as sementes
Através do sonho, a moça bonita viaja, viaja
Sabe que pode alcançar o céu
Os pés do chão ela não tira
A terra árida não intimida seus dedos delicados
Novos, mas cheios de sofreguidão
Um dia, as coisas hão de se ajeitar
E flores nascerão para mostrarem o caminho

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

“A mãe do Lula”


Dia 1º de janeiro é tediante. A cidade fica calma, os carros e as pessoas desocupam as ruas, o comércio é fechado e a televisão brasileira não passa nada que preste. Então, após comer um R.O, fui tentada a assistir a estréia do filme “Lula, o filho do Brasil”, dirigido por Fábio Barreto.
A sessão estava lotada de pessoas curiosas em confirmar o desastre que é a película ou admirar a sofrida trajetória do nosso presidente.
Começou com uma enorme tela preta e o aviso de que o filme não recebeu nenhuma lei de incentivo para ser produzido. Tudo bem, a gente acredita. Mas nunca antes na história desse país eu vi tanta empresa privada patrocinando um filme. Diante dos nossos olhos, uma lista de marcas subia na tela: Camargo Corrêa, Senai, Grendene, Souza Cruz, Volkswagen, Hyundai, OAS, Odebrecht, Oi, Ambev (sendo representada pela Brahma) e até o grupo EBX, de Eike Batista. As piadinhas do público foram inevitáveis. Deveriam ter tomado muito cuidado com isso, já que de cara incita a não aceitação da crítica (e dos telespectadores, claro).
Aí, vem o segundo grande lance: o filme do Lula não é do Lula! É da mãe dele. A pessoa que mais se evidencia na trama é Dona Lindu.
Fábio Barreto tinha em mãos a matéria-prima de uma história de vida excepcional, merecedora, sem dúvida, de um bom roteiro. Mesmo assim, ele deixou a saga única de um retirante nordestino que chega à Presidência da República, apesar da desigualdade brasileira, ir para o beléu.
“Lula, o filho do Brasil” não convence nem os mais sensíveis. O sertão é sutilmente apresentado e a pobreza não é afetiva. As cenas são quase um déjá vu de outros filmes que envolvem o interior nordestino. Quando criança, Lula parecia um garotinho predestinado à vida política. Como pode?
Sem falar na narrativa, que é linear e bastante convencional. Em uma cena ele é um simples metalúrgico e, em dois minutos, vemos o “futuro do país” discursando como presidente de sindicato.
De um melodrama épico (bastante explicadinho e redundante), o filme se torna cansativo da metade para o final. As imagens da iniciação política já foram vistas por diversas vezes nas matérias da TV Globo. Um amontoado de clichês. Como se justifica uma produção tão decadente dentro de um orçamento de, aproximadamente, R$ 31,6 milhões. Abre parêntese. Desvio de dinheiro? Em tempo, a campanha da Dilma Roussef, daqui a alguns meses, deverá estar recheada de produções cinematográficas. Fecha parêntese.
O filme termina quando Dona Lindu morre e Lula sai do DOPS, após passar um mês comendo o pão que o diabo amassou. A gente subentende isso, pois as ceninhas de Lula levando porrada foram confiscadas. A politicagem é apenas pincelada nos discursos pífios, que não chegam nem próximos da tão bem falada oratória lulista.
Apesar de uma carga dramática, “Lula, o filho do Brasil”, diferente de “Dois filhos de Francisco” (desculpe, a comparação foi involuntária), não conseguiu tirar uma gota dos meus canais lacrimais.

p.s1: esse post não tem nada a ver com minha escolha política, pois, assim como você, também votei em Lula duas vezes seguidas.

p.s2: decidi escrever sobre “Lula, o filho do Brasil” porque ele é ruim. Não tanto quanto “Do começo ao fim”, que, de tão catastrófico, abandonei na metade.

p.s3: de emocionante, só a trilha de abertura intitulada "Jornada", feita por Antônio Pinto.

p.s4: o Brasil está para Lula, assim como Lula está para o Brasil. Lula tem a alma do povo. E é exatamente isso que identifica essa proporção direta e o legitima como “filho do Brasil”.
Para fechar, um poema de Mário de Andrade, do qual me recordei ao ver o filme:

Ode ao Burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
"–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar... –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burgês!...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009



Prólogo.

A vida é a arte do encontro, já dizia o grande mestre Vinícius de Morais.
Eduardo e Mônica, personagens da música de Legião Urbana, perdem para Anita e Gilberto. Nunca escrevi uma história romântica, talvez por não saber conduzi-la. Sou tão atrapalhada em minhas próprias situações, que dissertar sobre as dos outros seria uma experiência lastimável. Mas, a minha cabeça fervilha e implora por vivências.
Isso! Foi uma vivência que me deu inspiração suficiente para relatar o meu primeiro conto-romance de gaveta. A inexistente relação de Anita e Gilberto era o que havia de mais legal. Este propósito me levou a escrever (e criar) a história. Amor platônico? Fica ao seu critério...

Parte I - O trágico fim.

O fato é que Gilberto levava Anita tão a sério, a ponto de enviar, no meio da madrugada, a seguinte mensagem suicida para uma amiga: “Por que ninguém consegue gostar de mim?”.
Era 1h30. Aline deu um pulo da cama com a frase que acabara de ler. Como ela não sabia decorado de quem era o número, começou a procurar desesperadamente na agenda telefônica. Até que, enfim, chegou no Gilberto.

- “Deve tá bêbado”, pensou ela, voltando a deitar a cabeça no travesseiro para não perder o sono.

Aline já imaginava o porquê de Gilberto enviar a maldita mensagem de madrugada. E ela ficava mais puta da vida quando o seu pensamento era confirmado.
No outro dia, ela o procurou para saber o que diabos tinha acontecido. Aline e Gilberto conversavam bastante por e-mail, já que passavam o dia em seus respectivos trabalhos. Apesar de uma profissão vagabunda de jornalista, eles não eram vagabundos.
Vez ou outra, tinham diálogo e brigas intermináveis a respeito da tal menina que Gilberto se apaixonou perdidamente. Ele não é otário, mas se comportava como um quando falava de sua amada.

- “Que mensagem foi aquela que você me enviou ontem de madrugada?”
- “Desculpa, mas é que eu estava muito mal. E como você é a única pessoa que sabe sobre Anita, sobrou pra você o desabafo. Prometo não fazer de novo.”
- “Tudo bem, mas tá na hora de você começar a esquecer, definitivamente, essa mulher...já chega, Giba”
- “Vi Anita com um cara ontem no show. Ele era feio pra caralho e mais velho do que eu. Não me conformei, surtei e fui embora.”

O p.s do e-mail dizia: 24h sem dormir e cheio de nicotina no sangue. Não sei como essa sexta-feira vai terminar.

Parte II - O início: um show de rock.

Vamos ao começo da história. Um início convencional, do tipo “Era uma vez...”

Gilberto não costumava se arrumar muito para sair. Colocou a velha calça, a blusa frouxa e os sapatos que imploravam para ser doados. Tinha um cabelo comprido, típido de metaleiro.
Foi à rua, como sempre, bastante desanimado. Ele não disfarçava nem a cara azeda. Fazia questão de ser chato mesmo. E não adiantava reclamações, ele iria franzir a testa quando fosse preciso.
O destino daquela noite foi um de show de rock pesado. O lugar estava cheio de gente. Gilberto chegou e foi logo comprar uma cerveja para ser sua companheira. Com os braços cruzados, ficava atendo olhando ao seu redor.
Ele era um rapaz bastante observador, tinha uma olhar crítico em relação a tudo. O pessimismo também lhe acompanhava. Nada parecia estar bom. Sempre havia algo para criticar.
Gilberto resolveu, então, dar uma circulada. Encontrou com uma amiga da época de colégio. O nome dela era Amanda. Os dois conversavam harmoniosamente. Gilberto até se engraçou para o lado dela, resolvendo investir na moça. Mas uma terceira menina cruzou o seu caminho. Giba olhou fixamente para ela, que caminhava seriamente em sua direção. Por uns segundos, a vista dele escureceu. Ele entrou em transe ao ver aquela bela moça dos olhos verdes e do cabelo preto. A lata de cerveja, cheinha, quase caiu no chão com a tamanha demência. “Minha nossa”, suspirou.

- “Oi gente.”, disse a bela moça dos olhos (surpreendentemente) verdes.
- “Giba, esta é Anita, minha amiga da faculdade”, esclareceu Amanda.

Mesmo contente, Gilberto não conseguia se expressar. Estendeu uma mão com o cigarro acesso e a lata de cerveja na outra. Deu um sorriso de lado, apenas. Anita ficou meio sem graça.

- “Ele é sério, né?”, cochichou para a amiga.
- “Não, ele só tem essa casca grossa, mas é gente boa. É só não falar merda pra ele e fica tudo certo.”

Mal sabia Amanda que, mesmo se amiga falasse merda, ele continuaria encantado. Gilberto e Anita passaram a noite conversando. O assunto era diverso. Falavam sobre bandas favoritas, o que gostavam de fazer e o que faziam de suas vidas. Ela havia acabado de entrar na faculdade de ciências sociais e ele já era formado há tempo em jornalismo. As notas das músicas do rock pesado reverberavam um sentimento que jamais havia existido. Era como se o mundo havia acabado ali, restando apenas os dois. Aquela noita ia ficar marcada. Gilberto, que já estava desesperançoso com mulheres, se viu estimulado. Os dois se deram bem. Mas, por enquanto, nada de paixão.

No outro dia, o celular de Anita tocou logo cedo.

- “Oi, desculpa te acordar. Passei a noite pensando em você e resolvi te ligar.”

Giba não costumava ser romântico e, muito menos, meloso, a ponto de fazer riminhas nas frases. Mas, na noite anterior, tinha prometido para si mesmo que iria “agarrar” Anita.

- “Poxa, eu estou dormindo. Liga uma outra hora.”
- “Mas, é que...”

Tudo o que Giba ouviu foi o som ocupado do telefone. O coitado havia treinado a madrugada todinha para fazer a ligação. Começou a andar de um lado para o outro no quarto, pensando como poderia ser a próxima abordagem. Apesar da mancada, ele não desistiu. Esperou a hora do almoço e retornou.

- “Oi, sou eu de novo...”

Anita ainda não estava acordada, mas seu sono era leve. Ela atendeu o telefone sonolenta, sem saber direito com quem estava falando.

- “Você? Quem?”
- “Sou eu Anita, o Giba!

(Filho da puta, pensou ela.)

- “Ah...tudo bom?”.
- “Tudo. Te liguei pra gente ir tomar sorvete.”
- “Olha, eu ainda nem almocei.”
- “Então, vamos almoçar?”
- “Minha mãe fez almoço farto hoje. Não posso fazer essa desfeita.”
- “Tudo bem. Ligo outra hora”
- “Tá...”
- “Beijos.”
- “Outros.”

Na noite anterior, Anita até havia se interessado pelo rapaz. Só que a insistência dele logo de cara não foi legal. Ela começava a pegar abuso, enquanto ele se apaixonava...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Parte III – A conversa ainda perdura.

A noite, no msn, Anita e Gilberto enfim conversaram. O nick dele era direto e prepotente: Giba – todo começo é angustiante. Já o dela era apenas Anita, com a simplicidade de uma garota. O diálogo estava indo bem, mas Gilberto acabava estragando tudo por causa de suas flertadas sem graça.

- “Ah, sou fã de Ozzy Osbourne”, comentou Anita.
- “É, eu detesto, mas você é linda mesmo assim.”
- “Quanta gentileza”, disse ela, respirando fundo.
- “Ei, vamos sair?”
- “Vou aqui tomar água...”

Anita se saiu, queria mesmo despistar o “mela cueca”. Gilberto ficou lá à espera da amada, firme e forte. Ele estava de olhos perdidos na tela do computador e suava de tanta ansiedade. Era uma paixão que nem ele mesmo sabia de onde vinha. Sempre achava esses sentimentos uma grande besteira.

- “Iai, decidiu?”
- “Eu estou de TPM! Você não se incomoda?”
- “Não tem problema, eu adoro mulheres de TPM.”
- “Sabe qual é a diferença entre uma mulher de TPM e um pitibull?”
- “Não”
- “O batom”

Giba caiu na gargalhada.

- “Olha, até com TPM você é sensacional. Desculpe, mas vai ser muito difícil ter raiva de você.”
- “Você não me conhece pra tá dizendo isso. Vai se arrepender.”
- “Eu quero tentar me arrepender.”

“E se eu te mandar tomar no cu?”, pensou ela. Giba não se tocava, parecia um retardado. Sua paixão ia além do estado natural das coisas e até da sua própria personalidade.
Anita já não aguentava mais as piadinhas idiotas. Decidiu, então, fazer um sacrifício. Ela optou por falar na cara dele que ele era um otário, tinha um bigode de nazista nojento e um cabelo de fazer doer o estômago. O sistema nervoso já havia trabalho bastante. Anita gostava mesmo era de homens peludos.

Parte IV – Abre os olhos.

Cinco horas da tarde. Gilberto estava de pé, esperando em frente à pracinha que ele havia combinado com Anita. Ela chegou apressada, anunciando que não podia passar muito tempo por ali, pois precisava voltar para casa logo.

- “Mas Anita, é a primeira vez que a gente se encontra.”
- “Olha, não discute.”
- “Sua TPM não vai me intimidar.”
- “Eu tenho uma coisa pra te dizer.”
- “É mesmo? Você tem namorado?”
- “Quem dera...seria tudo muito mais fácil.”
- “Fala logo.”
- “Nós somos diferentes.”
- “Diferentes? Não, não somos. A gente até gosta das mesmas bandas, você viu!”
- “Não é disso que estou falando.”

Gilberto olhou para Anita desconfiado.

- “Você é um otário, tem um bigode de nazista nojento e um cabelo de fazer doer o meu estômago.”
- “Hey, vamos parando. Não vou deixar que você me ofenda. Estou aqui com todo amor pra dar. Qualé?”
- “Tenho que ir.”
- “Peraí, você tá com um fio enorme na bochecha. Deixa eu ver”, disse ele, tentando puxá-lo.
- “Não toque aqui.”, gritou ela, colocando a mão no rosto.

Quando Anita se virou, Giba notou que nascia um rabo no lugar da bunda. Ele ficou paralisado, olhando aquele fenômeno transformista (hollywoodiano) diante dos seus olhos. Antes mesmo que saísse alguma palavra de sua boca, a revelação veio à tona.

- “É isso mesmo, eu sou uma lobiwoman.”
- “Uma lobi o que?”
- “Isso, uma lobiwoman. Agora, preciso ir. Você não vai gostar de ver o efeito completo.”

Anita saiu correndo. Gilberto ficou em estado de choque. Seu rosto estava flácido e a baba descia no canto da boca. O coração estava acelerado. O amor havia se tornado ainda mais intenso.

Parte V - Nem todo fim é o fim.

Gilberto acessou a página do google e digitou a palavra “lobisomem” no campo de busca. Apareceram milhares de opções na pesquisa, incluindo sites sobre filmes, livros e jogos de RPG. O blog “infernorama” parecia a fonte mais confiável sobre o assunto. Lá ele encontrou todos os detalhes da maldição da lua cheia.
Depois de ler tudo e se inteirar do tema, ele ligou para Anita várias vezes, mas ela não atendeu. Deixou recado, mandou mensagens, e esperou por várias horas e nada. Então, resolveu ir ao prédio dela. Pediu para o porteiro interfonar, mas ninguém atendeu no apartamento.
Foi aí que ele atravessou a rua, caminhou até uma pequena praça que ficava em frente ao prédio e sentou-se em um dos bancos. Então percebeu que era noite de lua cheia, por isso Anita não estava em casa. Ela havia se transformado e tinha saído noite adentro. Gilberto preferiu não pensar no que ela estava fazendo solta por aí na forma de lobo, mas sabia que precisava esperar até o amanhecer para encontrá-la.
Ficou no banco da praça até de manhã. Por volta das 6 horas, um táxi parou em frente ao prédio e Anita desceu. Gilberto correu em sua direção e gritou seu nome.

- Você? Que porra tá fazendo aqui? – disse a menina, assustada. Ela estava toda suja e com as roupas rasgadas.
- O que houve com você?
- Você sabe o que houve. Eu lhe mostrei.
- Mas e suas roupas?
- Eu virei um lobo, idiota. Por isso minhas roupas rasgaram – gritou ela, batendo em Gilberto com sua bolsa.
- Algum problema, dona Anita? – perguntou o porteiro, da guarita do prédio.
Não. Tudo bem – respondeu ela. – Agora vá embora, Gilberto.
- Eu li sobre seu problema. Talvez eu possa te ajudar.
- Você acha que se tivesse cura, eu já não teria feito? Vá embora – pediu ela, e então, entrou no prédio.

Gilberto ficou olhando ela subir as escadas. Então ele se deu conta de que estava realmente apaixonado. E se não tivesse cura para ela, teria para ele.
Gilberto estava disposto a se transformar em lobisomem. Ficou pensando o que diria a seus pais quando eles descobrissem ou se a mordida de um lobisomem doía muito. Mas por amor, ele faria tudo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Vai bem aos ouvidos.


Eu ainda não tinha postado nenhuma crítica aqui neste blog. Como estou procrastinando o próximo post há algum tempo, resolvi colocar um texto que escrevi sobre o novo CD de Otto.

Assim, mato três coelhos com uma tacada só: o blog não fica velho e ainda ganha um texto de estilo diferente e pessoas não pertubam o meu juízo. :)

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Após seis anos de espera, eis que os fãs de Otto podem, finalmente, desfrutar de uma nova produção autoral. “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” é o nome do recém-lançado 7º álbum do artista, que também traz a essência do batuque futurista e brota dos mangues recifenses, como os anteriores. O CD foi co-produzido por Pupilo (batera da Nação Zumbi), contém dez faixas e está recheado de participações especiais, tais como Catatau (líder da banda Cidadão Instigado), Céu, na faixa “O Leite”, Julieta Venegas, nas faixas “Lágrimas Negras” e “Saudade”, além de Dengue (baixista da Nação Zumbi) e Lirinha (líder da banda Cordel do Fogo Encantado).

O último disco, “Sem Gravidade” (2003), deixando de lado a gravação do MTV Apresenta (2005), não chega nem aos pés do atual trabalho. Aos que acham que Otto tem uma péssima dicção e não canta nada, sugiro que comecem a abrir uma exceção. O ex-mangueboy, pela primeira vez, consegue abortar um material de qualidade, com música de letras poéticas e que, principalmente, fazem sentido, alinhadas a bons arranjos de cordas.

“Certa manhã acordei de sonhos intranquilos” fala de amor, não aquele obsessivo, mas algo mais simples, humano e fraterno. A fraternidade, por exemplo, aparece na música brega “Naquela mesa”, regravação de Sérgio Bittencourt. Com a base constituída por um som cafona de teclado, a letra narra as lembranças do filho sobre um pai ausente. No estilo de cantar, Otto traz à memória artistas como Benito di Paula, Luiz Ayrão e Agepê. Um brega de luxo, como os de antigamente.

Os batuques de origem manguebeat aparecem com intensidade em “Janaína”, uma letra em devoção à Iemanjá. A faixa “Meu mundo”, com participação de Lirinha, também possui batidas eletrônicas típicas da ex-banda Chico Science e Nação Zumbi.

Mas é depois de "Lágrimas Negras" que a composição musical começa a complicar. É o caso da música "Agora sim", onde ouvimos "Agora sim o saci, agora são dois irmão, agora posso correr, agora preste atenção". Será uma ode ao saci pererê? Bom, fica a questão. Já a desafinada acontece em “Filha”, quando o cantor parece não ter encontrado a nota adequada para a sua voz.

Considerando que o álbum foi gravado em um esquema de independência, sem a mão de uma gravadora e em conjunto com o Garage Band - programa que emula recursos de gravação e mixagem de um estúdio - Otto consegue realizar um trabalho autoral de qualidade e intenso. Na capa, o cantor parece fazer uma relação do mangue com os possíveis sonhos intranquilos. O título é uma transcrição da frase que abre o texto “A Metamorfose”, do escritor de ficção Franz Kafka (1883-1924): “Quando certa manhã Gregor acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Resta saber em que momento e qual foi a experiência que Otto passou para se identificar com esse verso tão profundo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Eu não preciso ouvir tua voz para saber o que você me diz
Prefiro o seu silêncio sem interrupções
O som das suas canções eu substituí pela calma
Desculpe, meu coração ainda palpita
Fica mais acelerado quando o meu pensamento se agarra ao seu
Eu sinto as saudades
Mas não quero despertar para o pesadelo
Para as atrocidades de noites amadas sem coragem
Para tristezas que passam a correr a sua revelia
Continue no silêncio e me fará feliz

quinta-feira, 26 de novembro de 2009


Pessoas se repulsam, se rejeitam e se conflitam
As relações decaem numa velocidade perceptível aos nossos olhos
Mas não alcançáveis às nossas mãos
Perdemos o controle
Nossos desejos tornaram-se fúteis e, ao mesmo tempo, traiçoeiros
Só fazemos aquilo que nos interessa
E nada mais

Também estou só.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sensações de um lugar


A vegetação rasteira do interior de Pernambuco passa rapidamente diante dos meus olhos. Tudo muito verdinho, contrastando com o céu azul. Azul também é a cor do mar, já dizia o grande Tim Maia. Percebo as diferentes tonalidades quando vai chegando próximo à via costeira. A praia aparece de mansinho, entre algumas árvores. Sinto o cheiro de maresia, anunciando o lugar, e logo a cabeça se torna espiã. Procura, procura até achar a grande protagonista, que tem o poder de deixar as pessoas libertas. O ambiente praieiro transpira poesia e musicalidade. O sopro do vento é que nem um blues de qualidade aos ouvidos. Dispenso as sandálias para que nada interrompa o momento do contato. Eis que a areia se junta aos meus pés descalços. Mais alguns passos à frente e sinto a água salgada. Meus pés sábios notam facilmente o sal. Começam a coçar desesperados. Maldita alergia. Alergia? De mar? Como se pode desprezar algo que proporciona intensas emoções? Meus pés são burros, isso sim. Mesmo assim, não me reprimi. Pulei as ondas, agarrei-me ao mar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Versinho de uma tarde

Instantes que o tempo não apaga
A consciência peca ao pensar
A indiferença diz que sim
Mas as lembranças não permitem a vivência
Do mal que faz, ninguém irá me socorrer depois.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Exceção


As pernas frágeis mal conseguiam passar debaixo da roleta
O moleque sabia que de graça ele ia
Pudera, a idade permitia
Passou um, depois o outro e, por último, a menininha dos cabelos de cachos miúdos
Se contorciam para justificar o direito de ir sem pagar
Um espetáculo circense, mas sem aplausos
Atrás, a mãe vinha contente
“São seus?”, alguém perguntou
“É sim. Tenho três bênção”, respondeu ela
Regras que não merecem ser seguidas
A concordância nominal perdeu para tanto orgulho



às 18h43 de um dia pouco engarrafado.