segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Assustadoramente bom



Para compensar a minha falta de atualização, resolvi comentar sobre o livro do meu compadre Geraldo de Fraga (ele já foi personagem em alguns textos deste blog).

Infelizmente, não escrevi a tempo do lançamento, que foi no domingo passado (29/08), durante a Festa do Livro. O evento acontece todos os anos aqui no Recife, mais precisamente na Praça do Arsenal (Bairro do Recife), e reúne várias editoras e livrarias.

Malassombramentos: Os Arquivos Secretos d’O Recife Assombrado faz parte das Edições Bagaço. As quatorze histórias, escritas pelos jornalistas Roberto Beltrão - também editor, Geraldo de Fraga e Jaqueline Couto, são baseadas em lendas e casos de assombração já conhecidos pelos moradores da capital pernambucana. Na publicação aparecem figuras medonhas como o Lobisomem, a Emparedada da Rua Nova, o Papa-figo e a Cumadre Florzinha.

As belas ilustrações da capa e dos capítulos são do artista plástico Fábio Rafael.

Você que é apreciador da literatura fantástica, e não tem medo de alma penada, vale a pena conferir Malassombramentos: Os Arquivos Secretos d’O Recife Assombrado. :)

p.s1: Não estou ganhando nada para a divulgação. Foi por livre e espontânea, digamos, pressão.


quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ah, a nostalgia...

...às vezes, ela é bem gostosa. Adoro me deparar com lembranças fúteis de infância.
Esta semana encontrei com um senhor que tanto marcou as minhas horas de recreio. Subi no ônibus, olhei pra trás e lá estava ele, intacto. O tempo parece que não fuleirou. Continuava o mesmo. Pele um pouco envelhecida, magro, calça beirando o peitoral e óculos de armação grande com lente fundo de garrafa. O nome dele era José. Para os íntimos, apenas Zé.
Zé fazia serviços gerais no colégio em que estudei quando adolescente. Na hora do recreio, eu e meus colegas (meninas também) saíamos para o pátio. Nem sempre Zé estava lá, mas, quando estava, aguentava a gente a pulso. Tínhamos mania de falar perversidades para ele. Os meninos, alguns com um pouco mais de 12 anos, ficavam incumbidos de perguntar: “Zé, tu ainda come tua mulé?”. Ele caía na gargalhada. Apesar do colégio ser religioso, ninguém seguia à risca os bons ensinamentos. A safadeza corria solta durante o intervalo. Zé, baixinho, também contribuía para a putaria juvenil. “Enrugada só minha cara, a pitoca ainda continua firme.”

p.s 1:. Agora eu reconheço como eram felizes as minhas horas de recreio. Obrigada, Zé, por esses momentos de pura depravação.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ilustração: Acioli

Trocou a casa por um balão
O céu, de tão perfeito,
lhe mostrou o caminho do infinito

segunda-feira, 14 de junho de 2010



p.s 1: How do I find myself again?

sexta-feira, 11 de junho de 2010


Ilustração: Acioli

O homem saiu para pescar palavras
Que pena, mas só tinha peixe
Voltou para casa vazio


p.s 1: Acioli é um cara que desenha pra se fuder, além de ser um grande amigo. Recentemente, ele criou um blog para divulgar suas ilustrações. Entra aí http://aciolidesenhos.wordpress.com/

quinta-feira, 27 de maio de 2010



Você já reparou nos vendedores de pipoca? Não são aqueles que vendem no carrinho, esperando você sair bonitinha (o) do cinema ou teatro. São aqueles que, na hora do rush, ficam correndo para lá e para cá com um saco na mão. Pois bem. Dia desses, voltando do trabalho, dediquei-me a observá-los. Percebi, então, que são verdadeiras empresas competidoras. Tudo bem, eles podem até ser amigos, mas na hora de gritar “Olha a pipoca, olha a pipoca” a rivalidade entra em jogo. É uma concorrência inconsciente, mas acirrada. Tem aquele que grita “Olha o pipocão”. Já outro diz “Olha a pipoca crocante”. Um mais ousado arrisca em dizer que é “O passatempo da viagem”. Todas essas frases são repetidas em alto e bom som e em curto espaço de tempo. Até que entranha pelos ouvidos e a mensagem vai parar na barriga. Então, pedimos “Me vê uma pipoca, por favor”, para tentar amenizar a fome do jantar.
Como são muitos pipoqueiros, é preciso buscar uma maneira diferente de convencimento. Quando um ônibus vai se aproximando da parada, eles saem correndo e tentam alcançar as janelas. Nós, compradores, não temos muitos critérios para decidir entre esse ou aquele. A pipoca é a mesma e o preço também. A maneira de comunicar e a abordagem diante do consumidor são as estratégias de marketing em questão. Daí, eu me perguntei, e eles sabem que danado é estratégia de comunicação? Marketing? Não, não sabem.
Essas coisas estão na essência do ato de vender. Os pipoqueiros têm noção de concorrência, de disputa. E, para vencerem esta batalha, precisam se munir de ferramentas “conquistatórias”. É preciso encontrar caminhos para se destacar.
Foi aí que um deles me chamou atenção. Com agilidade, o pipoqueiro conseguiu convencer o motorista de entrar no ônibus para vender as pipocas, só durante o trajeto da parada até o sinal que havia logo mais à frente. Ele sabia que isso lhe traria bastante êxito. E trouxe. Saldo: 10 pipocas vendidas.

p.s 1: Esse post é em homenagem ao meu (in) consciente workaholic.

terça-feira, 18 de maio de 2010



À tardinha, Roseane junta todas as moedas que arrumou pedindo esmola no sinal. Vai até o moço que cuida da segurança da rua e exige a bicicleta emprestada. Nem ela mesma sabe como aprendeu a andar. Não precisou das rodinhas. Foi autodidata. A inópia fez com que ela conseguisse pedalar sem a ajuda de ninguém. Quando adolescente, Roseane corria na bicicleta para levar o pão ainda quentinho até a sua mãe. Hoje, ela corre para manter o vício. São cinco pedras de crack antes do pôr do sol.

p.s 1: esse micro-conto é baseado numa história real.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

É tristeza e alegria
Tudo misturado
Confuso
Afoito
Falta de pulso
Ausência do não
Ouço forte um grito desesperado
Às vezes, eu sou o próprio descarrego

terça-feira, 4 de maio de 2010

Dupla personalidade



Carvalho, orvalho das manhãs
E das maçãs que caem por causa dos ventos de maio
Um sol imprevisível aparece derrubando todas as gotas
Tudo volta ao normal
Um dupla personalidade
Que a natureza tenta equilibrar

quinta-feira, 29 de abril de 2010


Seu Nelson passa doze horas do seu dia preso no elevador. Não é porque quer. É o seu trabalho. Sentando em um banquinho, ele monitora a subida e a descida de pessoas que transitam em um prédio empresarial. Ele gosta do serviço, mas odeia a quantidade de “obrigado” que escuta diariamente. São quase dois mil. Apesar de Seu Nelson não ser mal educado e ter plena noção que as palavras são de agradecimento, se ele pudesse, acabaria com isso. Um dia, o velho Nelson se entristeceu por não receber um obrigado. Este, sim, seria o mais importante da sua vida. Ao chegar ao andar, a sua amada simplesmente virou as costas e foi embora.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Joana Maria



Joana Maria já nasceu com os pés no chão. Hoje, ela tem cinco anos e um semáforo como aliado. Toda vez que um carro se aproxima, a danada corre, levando consigo uma garrafa pet velha, cheia de água do poço, e um limpador feito de borracha. Estica-se todinha para tentar alcançar o pára-brisa, afastá-lo e depois jogar água no vidro dianteiro. Quando dá, ela também limpa o vidro traseiro. Todos os dias são assim. Sua infância vai embora junto com as necessidades. Para casa, Joana leva desaforos e algumas moedas.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Toda nudez será castigada


- Como você consegue escrever tão bem? – perguntou ele, olhando curiosamente para o texto
- Eu não sei escrever, apenas sei viver – disse ela
- Acho que a vida não tem me proporcionado boas experiências então, mas eu vou insistir – comentou o rapaz, mesmo com raiva do que tinha escutado.
- Para cada situação, eu crio histórias. Histórias enormes que chegam a não caber em minha memória. Levo sempre comigo uma caneta e um papel. Anoto, anoto tudo o que vejo, sinto e percebo.
- Eu também faço isso. Só que ultimamente as palavras fogem de mim, como se eu fosse um monstro terrível, sabe? Eu tento acalmá-las. Reúno as melhores frases e peço que elas dêem as mãos. Quando eu penso que está tudo resolvido e me distraio um segundo, elas fogem de mim novamente.
- Não as force. Elas fogem, pois não têm certeza do que você pensa sobre elas.

Ele parecia ter entendido muito bem o recado. Voltou para casa com um olhar mais aguçado e minucioso. Qualquer diálogo era motivo de atenção. Observou o trânsito pela janela do coletivo. Nada. Chegou em casa, esquentou a sopa de feijão que tinha feito na noite anterior, leu algumas revistas pendentes e foi tomar banho. As idéias cessavam. De repente, ele parou de pensar o que havia de pensar. Nada mais interessava, a não ser a água que escorria em seu corpo. Esse era um momento diário de tranquilidade. Foi aí que uma idéia surgiu. Em poucos segundos, o texto já estava ali, pronto na sua cabeça. Saiu nu do box e correu pela casa atrás de um pedaço de papel e uma caneta. Acabou tropeçando num vaso de flores. Fim da linha. Infelizmente, não encontrou nenhum dos dois. E as palavras que restaram não lhe permitiram construir sequer uma frase.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A pergunta errada (no lugar errado)


Geraldo, esse mesmo que de vez em quando deixa comentários neste blog, já não aguenta mais tanta enrolação com sua vida amorosa. Sempre alguma coisa dá errado.
Na última sexta-feira, por insistência dos amigos, ele decidiu sair para aloprar.
Aloprar, por sua vez, significa chutar o balde, beber até cair, dançar feito um doido na pista e não ligar para quem está olhando. Pois é, como muita gente, ele saiu de casa com esse objetivo, rumo a uma festinha descolada, que acontece quinzenalmente no bairro do Recife. Lá, por motivos não óbvios, ele conheceu uma garota, com a qual puxou papo. Apesar do som estridente, os gritinhos no ouvido permitiram que os dois trocassem algumas palavras.

Geraldo: Sim, mas como é teu nome?
Moça descolada: Essa não é a pergunta certa na Sem Loção. A pergunta certa é "Você gosta de homem ou de mulher?"

Geraldo faz cara de quem não gostou, mas continua o flerte.

Geraldo: Ok. Você gosta de homem ou de mulher?
Moça descolada: De mulher.

Geraldo sai, compra uma cerveja e vê a menina beijando um cara. Ele volta para tirar satisfação.

Geraldo: Pensei que tinha me dito que era lésbica
Moça descolada: E sou.
Geraldo: E esse cara que você beijou?
Moça descolada: É veado. Amigo meu.

p.s 1: Geraldo não vive nesse mundo. As coisas mudaram, meu amigo.

p.s 2: Façam suas apostas.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Da série: sinceridades que eu encontro por aí

Foto: João Miguel

Essa parede colorida é do espaço Oficina Ginga, localizado no município do Cabo de Santo Agostinho (a 41 km do Recife). Um trabalho social realizado com meninos e meninas da comunidade de Pontezinha, que inclui, entre outras coisas, aulas gratuitas de instrumentos musicais, maculelê e capoeira.
O texto retrata muito bem a angústia de uma criança diante de um mundo que não avança. Achei de uma sensibilidade incrível e resolvi postar a foto aqui no blog.

p.s: Não sei de quem é a autoria.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Lotadão

O ônibus era o inferno materializado. Pessoas se espremiam e imploravam por um pouco de ar. Estava num nível que não cabia mais ninguém. O motorista, não contente com o sufoco, abre a porta para uma penca de adolescentes. Eis que se estabelece um diálogo:

- Porra, tá foda – disse um deles, levantando a cabeça.
- Da próxima vez a gente não vai mais pro bar. Prefiro esperar minha mãe, véi.
- Ai que calor. Cala a boca, minha gente – gritou uma menina.
- Vocês também fazem um esparro, viu? Pensem que não estamos indo para a câmera de ar de Hitler. Estamos a caminho da nossa casa para comer e dormir.

Ah, tudo bem. Estamos todos mais aliviados.


p.s 1: Câmera é o #$%@#.
p.s 2: Mesmo que estivéssemos indo para a CÂMARA de ar, o sentimento de alívio iria permanecer. Afinal, a câmara da Alemanha nazista era a GÁS.
p.s 3: Eu queria saber que merda foi essa que esse menino bebeu (ou comeu).
p.s 4: Às 18h43 de uma quinta-feira engarrafada.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sentimento de urgência

Clarice me ensinou uma vez que a saudade é como a fome
Que só passa quando se come a presença
Por enquanto, estou em jejum
Sem nem de longe ver o prato

p.s: Essa Clarice é a Lispector. Minha amiga de momentos intimistas.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Cadê a criatividade que estava aqui?
O tempo comeu
O vento levou.......................
A caneta falhou
E eu fiz o favor de esquecer

Fica para a próxima

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

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Que triste ver o carnaval se esvair
Pernambucano, de fato, não deixa o frevo sumir
Ele pula, brinca, balança, sem nem aguentar mais
Pensa que a festa não acaba jamais
Mas já é tarde e a cidade precisa se mexer
Deixe, menino, Momo adormecer
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*Um lembrete a todos aqueles que, assim como eu, estão de volta à realidade.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


Lá vem ela
Na passarela
Toda magrela
Com sua fantasia
De flor amarga

Lá vem ela
Que coisa bela
Dando cambalhotas
Para ver se anima
O seu carnaval

*Bom carnaval!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Divagação II

Olha a cama do seu pai
O que é que tem?
Tá estranha
Estranha? Como assim? Deixa-me ver
Por que ele fez isso?
Debruçou?
Sim, para quê?
Ah, sei lá. Vai ver ele resolveu virar a vida de cabeça para baixo e fez da cama sua testemunha